Blog de maurorosso


Niemeyer 100 anos : salve !

A par do famoso\’clássico’  “Poema da curva”, vale  lembrar outra ordem de escritos do arquiteto-mór, exatamente os primeiros textos em prosa que escreveu  publicados na revista Módulo, por ele fundada e mantida de 1955 a 1964(ano  fechamento da revista pelo regime militar em 1964) – agora em vias de ser reeditada , “o primeiro número já pronto” como afiançou em recente entrevista ao canal de tv Record News. Estes textos foram agrupados no livro  Como se faz Arquitetura,editora Vozes, Petrópolis,1986.São textos importantes,coligidos e comentados por Danilo Mattoso, da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, para caracterizar ,primeiro, uma  postura teórica  consolidada de Niemeyer acerca da arquitetura, depois para expor uma evolução de seu pensamento com relação à própria arquitetura que criava e fazia.è um conjunto coeso e consistente  de temas  abordando os problemas da arquitetura de modo abrangente : seus textos são marcados por este caráter reflexivo ativo, circulando entre a palavra e o objeto arquitetônico.Antes,porém, Niemeyer já expusera claramente o sentido social que a arquitetura deve ter no  texto ”Ce qui manque a notre architecture”,escrito para  Ouvre  Complète (1938-1946),L. Corbusier , Les Editions d´Architecture, Zurique ,1946 , em que sentenciara  :“Os arquitetos devem ser os elementos ativos no momento que atravessamos, familiarizando-se com os problemas de nossa época e, principalmente unindo-se de modo decisivo àqueles que, trabalhando sinceramente para o progresso de noso país, nos propõem um  programa justo e verdadeiramente baseado nas reivindicações mais essenciais de nosso povo, capaz de garantir à nossa profissão seu caráter humanitário indispensável” .Em 1955, os textos publicados na Módulo têm sua razão na necessidade de resposta a críticas externas referentes à arquitetura brasileira , emitidas em 1953 pelo artista plástico e crítico de arte suíço Max Bill em estada no  Brasil para expor em São Paulo, críticas depois condensadas num conjunto de pareceres intitulado “Report on Brazil”, publicado em outubro de 1954 pela revista americana Architectural Review , tendo, entre outros, como autores o próprio Max Bill, Walter Gropius, Ernesto Rogers  -- o que produziu forte e crucial influência em Niemeyer, a ponto de simplesmente gerar “uma reelaboração do modo de trabalhar e pensar a arquitetura” e por extensão um dos principais fatores de modificação da arquitetura de Niemeyer.A resposta de Niemeyer veio em seu primeiro texto na Módulo:“Sobre estas críticas, meu amigo, nada tenho a dizer; nem me interessa mesmo contestá-las. Somos um povo jovem, com uma tradição de cultura ainda em formação – o que nos expõe naturalmente mais à crítica daqueles que se julgam representantes de uma civilização superior. Mas, também, somos simples e confiantes em nossa obra. O suficiente, pelo menos, para apreciar esta crítica, ainda quando parta de homens que não possuem, profissionalmente, as credenciais necessárias. É claro que a autoridade de Gropius é diferente, embora cumpra ressalvar a pouca afinidade que temos com sua técnica e fria sensibilidade. Consideramos a arquitetura obra de arte e que, como tal, só subsiste quando se revela espontânea e criadora. Trabalhamos com o concreto armado, material dócil e generoso a todas as fantasias. Tirar dele beleza e poesia, especular sobre suas imensas possibilidades é o que nos seduz e apaixona, profissionalmente. E por estas razões é que tanto nos identificamos com a obra de Le Corbusier. Obra de harmonia, onde as características de criação e beleza são as constantes fundamentais.E foi justamente dentro desse espírito de libertação e criação artística que a nossa arquitetura conseguiu em quinze anos (1938-1953) o prestígio mundial de que inegavelmente hoje disputa”[ p46-47].O  segundo texto de Niemeyer, de 1956, intitulado “Problemas atuais da Arquitetura Brasileira”, aponta para  uma “estranha insatisfação apossou-se ultimamente de alguns dos nossos arquitetos”, “um primeiro grupo  constituído por aqueles que, impressionados com as teorias tradicionalistas, almejam uma ‘arquitetura baseada na tradição e cultura de nosso povo’; e o segundo, pelos que se mostram alarmados com o baixo nível de nossas construções modernas, e reclamam soluções mais simples e racionais. A ambos respeitamos (...) . Deixando aqui este conflito de opiniões, segui para a Europa, onde mantive, durante todo o tempo de minha viagem, a preocupação de tomar contato com colegas estrangeiros, para com eles debater os problemas profissionais que nos são comuns.(...) Não desejando dar ao assunto uma importância descabida, quero me limitar a aproveitá-lo naquilo que ele apresenta de honesto e positivo.A nossa arquitetura moderna tem certamente na falta de conteúdo humano a principal razão das suas deficiências, refletindo – como não poderia deixar de fazê-lo – o regime de contradições sociais em que vivemos e no qual ela se desenvolveu.Dirigida a classes dominantes pouco interessadas em economia arquitetural – pois o que desejam realmente é ostentar riqueza e luxo. (...)“É verdade, e isso começa a inquietar, que a grande maioria das nossas construções apresenta um baixo nível arquitetônico, atingindo mesmo aspectos grotescos, e até ridículos, pelo emprego inadequado de certos materiais e pelo abuso de formas, muitas vezes extravagantes e impróprias. Este fato, apesar de grave, é fácil de ser explicado; realmente, o sucesso da arquitetura moderna no Brasil foi de tal ordem, que em pouco tempo tornou-se ela a nossa arquitetura corrente e popular.Tudo isso, porém é uma espécie de ‘moléstia de crescimento’, que devemos olhar sem surpresa, compreensivamente, procurando por meio de uma pertinaz campanha didática combater e eliminar”[pp.39-45].A partir da reflexão acerca de seus trabalhos e da arquitetura brasileira como um todo, Niemeyer parece tomar consciência de sua real importância no panorama nacional ; a partir disso, tenta fazer com que sua obra seja modelar, livre das moléstias de crescimento que assolavam a arquitetura nacional --  intenção que  torna clara ao apresentar  seu projeto para o Museu de Caracas:“(...) expor com franqueza e simplicidade as razões de ordem técnica e artística que orientam nossos trabalhos. Esta atitude, a meu ver, deveria ser adotada como norma habitual. Realmente, se o arquiteto, na hora de estudar os seus planos de arquitetura, levasse em conta essa necessidade, suas soluções seriam naturalmente mais apuradas, justas e realistas. A preocupação de tudo ter que explicar posteriormente, constituiria uma espécie de controle à sua imaginação e à sua fantasia, disciplinando as idéias surgidas dentro das condições objetivas de cada problema. Com isso, não se limitaria nem o ímpeto nem a força criadora, indispensáveis às verdadeiras obras de arte – garantir-se-ia, ao contrário, maior unidade, maior equilíbrio e maior realismo ao trabalho. (...) É possível estabelecerem-se certas normas capazes de ordenar o planejamento dentro de uma linha racional, lógica e equilibrada. Para isso, seria necessário a adoção de alguns princípios básicos: que a solução seja resultante das condições específicas de cada problema, das condições locais, topográficas e climatéricas, das condições funcionais e programáticas, da técnica e dos materiais em uso. Dentro deste critério, a arquitetura seria forçosamente de melhor nível técnico e, quando possível, se servida de força criadora, uma obra de arte. (...) Esta a razão do apelo que faço a vocês, estudantes de arquitetura, no sentido de se familiarizarem com as novas possibilidades técnicas e suas tendências atuais, de modo a encontrar amanhã, na elaboração de seus planos, não a solução publicada na última revista de arquitetura, mas aquela capaz de garantir ao seu trabalho um conteúdo novo, próprio e definido. O projeto que hoje apresento foi estudado dentro deste espírito.”[ “Museu de Arte Moderna de Caracas”, in Módulo, pp.39-45, 1956].

Voltaria ao teor reflexivo em 1958, com um depoimento significativo – um verdadeiro ‘divisor de águas’conceitual de sua arquitetura :“As obras de Brasília marcam, juntamente com o projeto para o Museu de Caracas, uma nova etapa no meu trabalho profissional. Etapa que se caracteriza por uma procura constante de concisão e pureza, e de maior atenção para com os problemas fundamentais da arquitetura.Essa etapa, que representa uma mudança no meu modo de projetar e, principalmente, desenvolver os projetos, não surgiu sem meditação. Não surgiu como fórmula diferente, solicitada por novos problemas. Decorreu de um processo honesto e frio de revisão de meu trabalho de arquiteto.Realmente, depois que voltei da Europa, após haver – atento aos assuntos do ofício – viajado de Lisboa a Moscou, muito mudou minha atitude profissional.”[“Considerações sobre a Arquitetura Brasileira”, in Módulo, p.8, 1956].

Interagindo   definitivamente  os argumentos dos críticos estrangeiros à sua mudança de atitude, a autocrítica explícita no texto expressa-se essencialmente em itens como : “(...)conteúdo social – “Sem uma justa distribuição da riqueza o objetivo básico da arquitetura, ou seja, seu lastro social, estaria sacrificado” ; impotência da arquitetura diante deste quadro – “Encarava a arquitetura como complemento de coisas mais importantes, e mais diretamente ligadas à vida e à felicidade dos homens” ;negligência pessoal – “aceitava trabalhos em demasia, executando-os as pressas, confiante na habilidade e na capacidade de improvisação de que me julgava possuidor” ; descuido com certos projetos – adotando “uma tendência excessiva para a originalidade, no que era incentivado pelos próprios interessados”.E concluindo: “Isso prejudicou em alguns casos a simplicidade das construções e o sentido de lógica e economia que muitas reclamavam.(...)Não pretendo, naturalmente, com estes comentários iniciar um processo de autodestruição, nem atribuir aos meus trabalhos feição depreciativa. Vejo-os, pelo contrário, como fatores positivos dentro do movimento arquitetural brasileiro, ao qual deram, na ocasião oportuna, por seu elan e sentido criador, uma contribuição efetiva que até hoje caracteriza esse movimento” [“Depoimento”, in Módulo, p.3, 1958].No artigo, um Niemeyer  melancólico se fazia presente – aliás, no estilo Schopenhauer, de quem declarou por diversas vezes ser um cultor e cujo pessimismo filosófico herdara(sic): “Sinto com isso um vago desânimo, desânimo que me leva a considerar ingênuos os que se entregavam à arquitetura de corpo e alma, como se construíssem obras capazes de perdurar. Embora nunca me tivesse desinteressado da profissão, encarava a arquitetura como complemento de coisas mais importantes, e mais diretamente ligadas à vida e à felicidade dos homens. Ou ainda, como costumava dizer, como um exercício que se deve praticar com espírito esportivo – e nada mais ”. Porém,  se a  mudança de atitude indicava,por um lado,a  esperança numa arquitetura mais justa para com a sociedade desigual em que vivemos, por outro sobreveio uma desilusão completa  após o seu exílio voluntário no exterior em 1967—que o fechamento da Módulo em 1964 o conduzira [“(...) paralizado pela reação, eu segui para o velho mundo com minhas desilusões e minha arquitetura(...)”--in Módulo Especial, p.35, 1985]. Um texto de 1979 é típico dessa desilusão: “Apenas no seu aspecto social a arquitetura me deprime. Sentindo como é discriminatória nesse mundo injusto em que vivemos. Não se trata de um problema de arquitetura, nem mesmo da forma arquitetural. Trata-se de um problema social no qual a arquitetura não pode intervir, pois dele é simples resultante. É claro que só a mudança da sociedade lhe garantirá o conteúdo humano desejado e que não é na prancheta, mas na luta política que o arquiteto poderá atuar e contribuir.”[“Metamorfose”, in Pampulha,p.10, nov-dez, 1979].A consciência quanto ao cenário mundial em que se situava sua arquitetura naquele momento era bastante clara:“Vai longe o tempo em que a arquitetura se apresentava como um problema unicamente ligado à função. A ‘máquina de habitar’ de Le Corbusier representa um período de combate, um período de transição forçada, no qual uma atitude ortodoxa, contra a incompreensão da época, se tornava indispensável. Hoje, vencida esta etapa, voltou a arquitetura à sua condição natural e eterna de elemento criador de vida, beleza emoção. De fato, não basta à arquitetura se apresentar como solução prefeita de problemas técnicos e funcionais. Uma simples visita ao passado mostra-nos que as obras que ficaram e que a todos surpreendem e emocionam são obras da sensibilidade e poesia. E, na verdade, diante desses monumentos de graça e beleza, passam a plano secundário, para as épocas futuras, características funcionais e utilitárias. (...) Evidentemente, com isso, não pretendemos assumir uma atitude idealista – de arte pela arte -, cujo conteúdo reacionário sabemos recusar, mas reconhecer que diante dessas obras imortais e consagradas o que atua em nossos sentidos é precisamente a beleza, o inesperado e a harmonia da solução plástica.”

 

 

 

 

 



Escrito por maurorosso às 19h24
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sobre a inflexão machadiana

apenas como um adendo . tratarei do tema com mais extensão e profundidade brevemente. as drásticas mudanças temática, estilística e de linguagem realizadas por Machado no final da década de 1870/início da década de 1880 -- concretizando o grande salto literário de sua obra e criando uma linguagem ficcional e não-ficcional diferenciada, mescla do humor e da seriedade, da galhofa e da crítica social e política, do riso e do tédio -- teve como instrumento e ferramental a forma shandiana e o shandismo [cf. Wbster's International Dictionary , "shandean", "aquele que tem o espírito de Tristan Shandy"; "shandysm", "a filosofia de Tristan Shandy"- em referência à obra A vida e as opiniões de Tristam Shandy, um cavalheiro, de Laurence Sterne] , para se utilizar da expressão magistralmente criada por Sergio Paulo Rouanet, inerente tanto ao romance e a contos como a crônicas. A expressão, hoje comum e consensual no meio da machadologia (e da machadofilia), define uma forma literária, que vindo de Sterne, de Xavier de Maistre, Almeida Garret e Denis Diderot,adquire em Machado sua substância mais consistente,simbiótica e conclusiva, inclusive dando a essa forma literária seus contornos e conteúdo definitivos. À forma shandiana estão associadas – não de modo genérico e onipresente , porquanto válido em algumas obras e autores, em outros não – a sátira menipéia e a tradição luciânica, originadas de uma tradição grega, dos diálogos socráticos, que mesclam temas especificamente filosóficos com assuntos de retórica e dialética, eivados de hilaridade, comicidade e ironia: na duplicidade sério-cômico,abriga o popular, o erudito, o burlesco, tornando-se p. ex. um dos elementos basilares da carnavalização conceituada por Mikhail Bakhtin . Na obra machadiana a partir da década de 1880 denota-se a presença marcante de manifestações da sátira menipéia, como a paródia, o subterfúgio ,a profanação, o disfarce e, em especial, a ‘desconstrução’ de formas literárias .

Escrito por maurorosso às 20h15
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explicação reticente

parece-me já bastante delineados o 'espírito' e as proposições deste blog -- um espaço paraa literatura brasileira. procuro POR ORA, como se deve ter notado, alternar textos mais densos (p. ex. , da série inicial "Os primeiros Machado") com coisas mais, digamos, 'leves' (mas literários, ou pertinentes à literatura : inseri uma receita de Natal, mas oriunda de um romance de Camilo Castelo Branco; abri um hiato para reverenciar Lima Barreto -- e falar da República e literatos ; atenção ! amanhã vou imiscuir  Euclides da Cunha e Os sertões-- para não se encerrar dezembro sem registrar os 105 anos de publicação do primeiro bestseller da literatura brasileira).

com o tempo tudo será sedimentado.



Escrito por maurorosso às 18h26
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esta imagem de Machado de Assis é rara -- ele aos 35 anos. corria o ano de 1874,então, quando Machado publicou  em O Globo , jornal de Quintino Bocaiúva,  em folhetins o romance “A mão e a luva”, editado em livro pela Livraria B.L.Garnier Editor no mesmo ano. por essa época, já iniciara um processo de mutação -- pode-se dizer, transição -- formal,estilistica ,temática e sobretudo de 'approach',digamos,ideológico (ideológico dentro da literatura, esclareça-se) que culminaria na célebre inflexão concretizada no final dessa década\início de 1880. também em 1874 , o funcionário público Machado de Assis deixou o cargo que ocupava no Diário Oficial e tomou posse do novo emprego no Minístério da Agricultura,Viação e Obras Públicas,no qual faria longa (e segura) carreira burocrática [há de se considerar que a estabilidade profissional,no serviço público, constituiu um dos fatores capitais para a evolução literária de Machado e o  processo de inflexão  em sua vida literária ].



Escrito por maurorosso às 18h05
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Um hiato em Machado : reverenciemos Lima-IV

Dono de obra ficcional e não-ficcional com vigoroso fulcro ideológico, Lima Barreto buscava na politização da literatura um sentido sobretudo  ético.Na única conferência literária que faria, mas não o fez — “O destino da Literatura”[1], em Rio Preto, São Paulo, em fevereiro de 1921 — foi explícito :“A Beleza não está na forma, no encanto plástico, na proporção e harmonia das partes, como querem os helenizantes de última hora . A importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfeição de forma, de estilo, deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano(...) E o destino da literatura é tornar sensível, assimilável, vulgar esse grande ideal de fraternidade e de justiça entre os homens para que ela cumpra ainda uma vez sua missão quase divina. Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa espécie, a Arte, especialmente a Literatura, a que me dediquei e com quem me casei; mais do que ela, nenhum outro qualquer meio de comunicação entre os homens, em virtude mesmo do seu poder de contágio, teve, tem e terá um grande destino em nossa triste humanidade.”

          Marginalizado por suas origens e condição social, execrado por ser ‘passadista e contrário à modernização’, Lima Barreto enfrentou as marcas de seu tempo e da sociedade brasileira que lhe foi contemporânea. Seu projeto era um projeto para uma vida inteira de militância literária contra o preconceito, mas também “contra os falsos intelectuais, contra um academismo espelhado no modelo europeu, contra uma literatura só de deleite, como ornamento”. Para ele, a literatura era uma verdadeira missão. A pretensa beleza estilística, os atributos externos formais de perfeição, de forma, de estilo, de vocabulário, não poderiam prescindir da “exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano, que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca, e aluda às questões de nossa conduta na vida[2]

                 Esse ideal, entendia ser impossível cumprir sob a égide acadêmica , como expõe taxativamente naquela  entrevista à  A Época, em fevereiro de 1916 : “Vim para a literatura com todo o interesse e com toda coragem... Não quero ser deputado, não quero ser senador, não quero ser mais nada senão literato. Não peço às letras conquistas fáceis, não lhes peço glorías, peço-lhes coisa sólida e duradoura... Eu abandonei tudo por elas; e a minha esperança é que elas vão me dar muita coisa...”

                Tanto nos romances e contos como nas crônicas e artigos, Lima Barreto  exerceu sempre uma crítica à cultura da modernidade contra a opressão social e a hipocrisia política — tal como se revelaram na implementação da República . A opção por uma literatura militante determinou o caráter marginal (e ‘revolucionário’, para muitos estudiosos) de sua obra:  sua visão crítica da sociedade, da política e da cultura, renderam-lhe frutos amargos — desprezo do público, penúria econômica, alcoolismo e doença, internação em manicômio — mas nada o fez submeter-se aos ditames da moda e dos valores culturais da República. A “esperança” mencionada por ele na entrevista de 1916 alimentava-se na verdade da recusa impassível em transigir com o que demandava popularidade — o aburguesamento do escritor, por via da adesão aos temas da moda, que fortaleciam os interesses políticos, econômicos, sociais e culturais da República.  Nada  porém o fez submeter-se a esses valores.

 

 

 

 



[1] publicada na Revista Souza Cruz,Rio de Janeiro, 1921 , em cujo número também apareceu trecho do romance O cemitério dos vivos.

[2] in Bagatelas ; Empresa de Romances Populares, Rio de Janeiro,1923.



Escrito por maurorosso às 12h11
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No lado oposto, além da ferrenha oposição à escrita aristocrática predominante , destoando e substancialmente contrário aos estilos vigentes, estava Lima Barreto – por essa época já respeitado como articulista e cronista e reconhecido como excepcional escritor mercê dos elogiados romances publicados Recordações do escrivão Isaias Caminha(1909) e Triste fim de Policarpo Quaresma (1915)—que rejeitava terminantemente fazer de tanto de seu trabalho jornalístico como de sua obra literária, fosse ficcional ou não-ficcional, “instrumento de propaganda do sonho republicano de falso progresso e falsa civilização”. Sustentava ele que fazia “uma literatura militante, de obras que se ocupam com o debate das questões da época (...), por oposição às letras que, limitando-se às preocupações da forma, dos casos sentimentais e amorosos e da idealização da natureza” [1]

           Lima Barreto impôs — com sua escrita simples, direta e objetiva , que feria o convencionalismo literário da época, impregnado de falsas concepções estéticas, floreios , etc  — os prenúncios do Modernismo logo depois  rompante na cultura brasileira [curioso notar que Lima Barreto morreu no mesmo ano de 1922, nove meses depois do fevereiro em que eclodiu o movimento,em São Paulo], cujos primeiros elementos e formas apareceram justamente pela linguagem típica da escrita barretiana. Não à toa despertou interesse e respeito por parte de Mario de Andrade, do alto de sua ‘autoridade’ de contista e teórico da construção ficcional, e levou p.ex.   Sergio Milliet a escrever  “(...) Lembro-me da grande admiração que tinha por Lima Barreto o grupo paulista de 22. Alguns entre nós, como Alcântara Machado, andavam obcecados .O que mais nos espantava então era o estilo direto, a precisão descritiva da frase, a atitude antiliterária, a limpeza de sua prosa, objetivos que os modernistas também visavam. Mas admirávamos por outro lado sua irreverência fria, a quase crueldade científica com que analisava uma personagem, a ironia mordaz, a agudeza que revelava na marcação dos caracteres[2] : nas páginas da então incipiente revista Klaxon (1921), os modernistas paulistas se propunham também a ‘descoelhonetizar’ [ref. a Coelho Neto,então epígono da escrita rebuscada e cheia de floreios retóricos] a literatura brasileira, rompendo com os cânones acadêmicos., objetivos bastante semelhantes da  revista Floreal, que Lima criara em 1907 e só durou quatro números.

        Assim, na contrapartida ao aristocratismo da escrita de então, aos nefelibatas da linguagem, tinha-se em Lima Barreto um registro da língua ‘brasileira’ do início do século XX e um ritmo genuinamente nacional que prenunciava a linguagem modernista. Segundo o historiador e ensaísta Nicolau Sevcenko [3] , “chama muito à atenção quando se lê a obra do Lima Barreto, a atualidade dessa obra não só em termos de linguagem — uma linguagem bastante acessível, bastante próxima até da oralidade — pela qual foi muito criticado pelos seus pares e intelectuais da época. Mas não só por essa linguagem mas também pelos temas de que ele trata e pelo modo como os trata  Pode-se  ir além porque muitos problemas de Brasil que ele pensa naquela época, que ele critica, e que ele, enfim, desenvolve como reflexão, permanecem absolutamente atuais” .

         Contrariamente à maioria de seus contemporâneos, praticantes da escrita floreada e vazia, aristocrática e fútil, verdadeiros instrumentos literários do “sorriso da sociedade” apregoado por Afrânio Peixoto, Lima Barreto conferia à sua obra ficcional o sentido militante de uma “missão social, de contribuir para a felicidade de um povo, de uma nação, da humanidade”. Em sua concepção, a literatura tinha de ser “militante”, com objetivo concreto e definido, como sentencia em entrevista a A Época,18.02.1916 : “(...)não desejamos mais uma literatura contemplativa, cheia de ênfase e arrebiques ,falsa e sem finalidade, o que raramente ela foi; não é mais uma literatura plástica que queremos, a encontrar beleza em deuses para sempre mortos, manequins atualmente, pois a alma que os animava já se evolou com a morte dos que os adoravam; digamos não a uma  literatura puramente contemplativa, estilizante sem cogitações outras que não as da arte poética, consagrada no círculo dos grandes burgueses embotados pelo dinheiro, de amplo emprego por pretensos intelectuais,bacharéis e políticos”  (...) “a obra de arte tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem. Este é meu escopo. Vim para a literatura com todo o desinteresse e toda coragem. As letras são o fim da minha vida. Eu não peço delas senão aquilo que elas me podem dar: glória!”

                                            (continua)


[1] In Impressões de leitura  ; ed. Mérito ,Rio de Janeiro, 1953.

[2] artigo “Noticiário’, in O Estado de São Paulo, São Paulo,  11.11.1948

[3] N. Sevcenko,Literatura como missão:tensões sociais e criação cultural na Primeira República;ed. Brasiliense, São Paulo, 1983.

[4] publicada na Revista Souza Cruz,Rio de Janeiro, 1921 , em cujo número também apareceu trecho do romance O cemitério dos vivos.

[5] in Bagatelas ; Empresa de Romances Populares, Rio de Janeiro,1923.



Escrito por maurorosso às 12h10
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Um hiato em Machado : reverenciemos Lima-II

 

          Difícil de manter uma convivência pacífica entre a República política e a ‘Republica das letras’, agravado pela crescente insatisfação popular com o novo regime, exposta em agitações de rua , episódios violentos, revoltas e movimentos de protesto – e mais ainda com os novos costumes e práticas de desenfreada especulação financeira, a busca  de enriquecimento a qualquer custo,o advento de um capitalismo predatório levando ao Encilhamento, a escandalizar Taunay que via “uma degradação da alma nacional”[1]  e  decepcionar republicanos ardorosos como Raul Pompéia ( “A república discute-se consubstanciada no Banco da República” ).A par do afastamento repressor promovido pelo poder, viram-se compelidos a submeter sua produção literária ao “valor do mercado” — (...) neste século de danação social, em que o Dinheiro logrou a tiara de pontífice ubíquo, para reinar discricionariamente sobre todas as coisas..”, registrava Augusto dos Anjos em palestra pública.

       Mas paradoxalmente foi o processo de arrivismo  bursátil e de especulação mercantil -- gerando  incremento de vultosos recursos , provocando a modernização da cidade, urdindo o que se denominou Regeneração, construindo a imagem de “uma sociedade ilustre e elevada” -- que propiciou aos  intelectuais malogrados uma espécie de atavio : passaram a ser vistos pela sociedade como ‘símbolos de ilustração’, ‘expoentes da cultura’, propiciando, entre outros aspectos, o desenvolvimento do ‘novo jornalismo’, ao qual os literatos se entregaram de corpo e alma . A adesão maciça dos escritores ao jornalismo, exercendo inevitavelmente efeitos negativos sobre a criação artística—falou-se em “vazio de idéias”—obrigou-os  a uma redefinição de suas posições intelectuais e uma clivagem em seu  universo social. Deflagrava-se com todas as letras e tintas a belle époque cultural, com o conseqüente processo de banalização e neutralização da força cultural da literatura, o intelectual descaracterizado e ‘dissolvido’ em meio à sociedade, às facilidades da nova vida social tendentes a extinguir o engajamento dos intelectuais que haviam feito a República. O novo espírito “agitado e trêfego” que tomou conta da cidade produziu “o recolhimento dos autores em estéticas e poéticas evasivas”, no entender de José Veríssimo, os intelectuais irreversivelmente assimilados pela nova sociedade construída pela República abrindo espaços para a mercantilização e banalização da própria literatura – vista agora como “o sorriso da sociedade” de que falava Afrânio Peixoto : “(...)A literatura é o sorriso da sociedade. Quando ela é feliz, a sociedade, o espírito se lhe compraz nas artes e, na arte literária, com ficção e com poesias, as mais graciosas expressões da imaginação.[2]

           Entrou-se de cheio no espírito mundano da belle époque, atingindo seu auge na primeira década do século, cuja literatura típica, porém, era estéril em termos nacionais, ainda que seu modelo cosmopolita europeu se coadunasse com a própria fachada da época: era uma literatura articulada com o modo de vida das elites urbanas europeizadas, fomentador do consumo, do excesso,da sensualidade,do aristocratismo; de extrema superficialidade e caráter preciosístico , uma coligação de alta sociedade e alta cultura.(nesse aspecto,Lima Barreto tinha a chave para entender e interpretar o Rio de 1900 : o  bovarismo , que apontava para as fantasias centrais que compunham o significado dessa época).

         O certo é que a decepção com a República e o ‘espírito’ inerente ao novo século, “o século da modernização e do progresso”, trouxeram novas formas e modos de o escritor se relacionar com a literatura, sob um processo algo ‘compulsório’ de aburguesamento e ‘mundanismo’, acarretando, por uma razão ou outra, a necessidade de adesão quase maciça dos literatos ao jornalismo — que se constituiu no fenômeno cultural mais marcante dos primeiros tempos do século XX. O significativo desenvolvimento dos meios técnicos da imprensa, iniciado na verdade em meados do século XIX, permitiu o crescimento e melhoria qualitativa dos jornais e o nascimento de muitas revistas ilustradas, ambos incluindo matérias literárias.           

          Por essa época, tanto os jornais como as revistas buscaram mais intensa e concretamente atingir a classe média urbana que então ia se formando e consolidando com o advento da República. Jornais e revistas, além do compromisso de informar e divertir, estavam engajadas num movimento de ‘democratização’ cultural: periódicos como Gazeta de Notícias, Diário do Rio de Janeiro,O Paiz, Diário Mercantil ,Correio da Manhã, Jornal do Commercio,Jornal do Brasil, Rio-Jornal, A.B.C. e as revistas O Malho , Revista da Semana, Kosmos, A Renascença , FonFon! ,Revista Contemporânea (essas duas caracterizadas como “simbolistas”), Careta , Ilustração Brasileira, A Cigarra, Revista do Brasil, Dom Quixote, Paratodos, O Cruzeiro, incluíam muita matéria cultural, como reportagens sobre exposições de artes plásticas, crítica literária, música, contos, crônicas, poesia, teatro e cinema . Quase todas as revistas não conseguiram sobreviver por muito tempo e ter vida longa — exceção apenas a FonFon! e a Careta, que chegaram, não ininterruptamente, até à década de 1950.A maioria dos jornais e revistas (tanto do Rio de Janeiro quanto de São Paulo) acolhia , e  pagava , colaboração literária  o que propiciou a escritores e literatos terem publicados seus trabalhos e ter uma fonte de recursos — para muitos, a única — e um chamado “second métier” condigno . Vale registrar que a imprensa propiciou a mudança para a metrópole de muitos intelectuais que não  logravam realizar-se literariamente em suas cidades e regiões de origem.[3]

          A rigor, quer no âmbito do jornalismo quer mormente  da literatura, os escritores, sob pena de caírem em ostracismo cultural e profissional e financeiro tiveram de em maior ou menor grau se submeter à preferência ou gosto dos leitores da época : a necessidade de se expressaram no mesmo diapasão da cidade contagiada pelos anseios de modernização e marcada pela ânsia do enriquecimento rápido fizeram-no adotar estilo, linguagem , forma e conteúdo mais superficiais e mesmo descartáveis, “adequados ao gosto do consumidor pequeno-burguês formado pela República”.                      

                                     (continua)
      
   


[1] Visconde de Taunay, O Encilhamento ; editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1971

[2] A. Peixoto,Panorama da literatura brasileira ; Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1940].

[3] Em O momento literário, de 1905, João do Rio indagava aos escritores brasileiros, entre outras questões, se “o jornalismo é um fator bom ou mal para a arte literária ?” — e nem todos os entrevistados interpretaram e responderam da mesma maneira : inteiramente contrários se mostraram por exemplo Luiz Edmundo, Elisio de Carvalho, Pedro do Couto, Inglês de Souza,, mas a maioria ,caso de Olavo Bilac, Silvio Romero, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque, José de Alencar  via no jornalismo uma “face bastante favorável ”, que podia ser praticado sem nenhum prejuízo para a arte literária ­—  e exemplos expressivos estão em Machado de Assis, Alencar ,Bilac, José Veríssimo, , João do Rio, Lima Barreto.



Escrito por maurorosso às 12h08
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Um hiato em Machado : reverenciemos Lima

Abro um parêntese nos “primeiros Machado” : antes que se encerre este 2007 , e antes que se inicie efetivamente “o ano Machado de Assis”(2008), há de se referenciar e reverenciar Lima Barreto --  mas convém dizer que no mesmo caso de Machado, seu nome,sua obra e sua grandiosidade literária postam-se acima e além de efemérides e circunstâncias de momento. Por que digo isso ? porque 2007 marca os 85 anos da morte do criador de Policarpo Quaresma, ocorrida a 1 novembro 1922 [ironia suprema : o escritor que reformulou a linguagem literária, que inspirou o discurso  estético, quanto à escrita e à linguagem, dos modernistas, morreu exatamente no ano da eclosão do movimento]. Mês de novembro, lembre-se, que também assistira, no dia 15 de 1889, a instalação da República, fato de fundamental importância política, institucional e social na história brasileira : dois acontecimentos – o novo regime e a morte do escritor --  extremamente significativos, separados por 33 anos, mas irremediavelmente entrelaçados e integrados,inclusive porque Lima Barreto, ao contrário dos intelectuais da época, foi o mais veemente e intransigente crítico do novo regime e da pretensa ‘modernização’ anunciada. Cento e dezoito anos de república e 85 anos sem Lima Barreto depois, ambos os eventos propiciam estimulantes reflexões , não apenas sobre a política e a literatura brasileiras mas em especial sobre a  própria institucionalidade do País.

 

A República, os intelectuais, o jornalismo e a literatura militante de Lima Barreto

 

        Embora não tenha produzido correntes ideológicas próprias ou novas concepções estéticas, a geração de intelectuais solidamente arraigada nas teorias cientificistas de 1870  e no espírito progressista da época parecia estar com a República, apoiada pela maçonaria, pelo positivismo e pelas correntes que se julgavam “desassombradas de preconceitos”:  as idéias circulavam então  mais livremente, num ambiente que Evaristo de Moraes [1] qualificou de “porre ideológico”, um verdadeiro  mosaico no qual era predominante o liberalismo - manifestando-se especialmente entre os republicanos ‘históricos’ como Benjamin Constant, José do Patrocínio, Silva Jardim, Lopes Trovão, Alberto Sales, Joaquim Serra – mas que abrigava  alguma voga de anarquismo em  Elisio de Carvalho (até escrever o Five o’clock), Curvelo de Mendonça,Fabio Luz, Afonso Schmidt, simpatias explícitas ao socialismo em Martins Fontes, Olavo Bilac, e até  anti-racismo declarado em Alberto Torres e Manuel Bonfim.

        Sob os princípios genéricos do liberalismo, o grupo intelectual definira a tarefa que lhes cabia: contribuir e propugnar por uma ampla, profunda ação conjunta para construir a nação —no campo da produção intelectual  intensificaram estudos da realidade brasileira (as obras de Euclides da Cunha, Alberto Torres, Manuel Bonfim,Oliveira Vianna são documentos exemplares) e se empenharam no ‘criar um saber próprio sobre o Brasil’( enfatizava José Veríssimo em “Um estudioso pernambucano”, artigo na revista Kosmos,n.1,Rio de Janeiro,1907) — e remodelar e fortalecer  o Estado (o que obviamente punha em confrontação a ambigüidade de sua ideologia baseada no liberalismo....).

        Já no dia 15 de novembro de 1889 os intelectuais registraram sua total adesão : numeroso grupo de republicanos,junto com gente da rua, tendo à frente José do Patrocínio,Aníbal Falcão,  João Clapp,Campos da Paz, Olavo Bilac, Luis Murat e Pardal Mallet -- estes três pela primeira vez movidos à ação política concreta-- dirigiu-se à sede da Câmara, aos gritos de viva à República, e redigiram moção de apoio aos chefes da insurreição militar nestes termos :

                               “Os abaixo-assinados ,órgãos espontâneos do povo do Rio de Janeiro, representam o governo provisório,instituído após gloriosa revolução que ipso facto extinguiu a monarquia no Brasil,a necessidade urgente da proclamação da República.

                Excelentíssimos srs. representantes supremos das classes militares do Brasil, marechal Deodoro da Fonseca,chefe de divisão Wandenkolk e tenente-coronel dr. Benjamin Constant.

                O povo do Rio de Janeiro, reunido em massa no edifício da Câmara Municipal, tem a honra de comunicar-vos que, por meio de diversos órgãos espontaneamente surgidos e pelo seu representante legal, proclamou  como nova forma de governo nacional a República.

                Esperam os abaixo assinados , representantes do povo do Rio de Janeiro, que o patriótico governo provisório sancione o ato pelo qual,instituindo a República, se pretende satisfazer a íntima aspiração do povo brasileiro. Viva a República  Brasileira ! Vivam o Exército e a Armada  nacionais ! Viva o povo do  Brasil !”

         O entusiasmo adesista dos intelectuais era generalizado; em outro manifesto, dirigido ao Governo Provisório instalado a 16 de novembro, assinado por alguns homens de letras em 22 de  novembro : “O povo, e quando dizemos povo referimo-nos àquela grande parte da nação que os aristocratas de todos os tempos chamaram desdenhosamente o terceiro e quarto estado, donde, reparai bem, em sua maioria saiu sempre o nosso glorioso Exército; os homens de letras, e quando dizemos os homens de letras referimo-nos a todos aqueles que tomando a si os encargos intelectuais da pátria foram, no curso de quatro séculos, os fatores  mais enérgicos e mais desinteressados de nosso progresso; plebe e pensadores, sempre estas duas forças caminharam aqui unidas !... Agora mesmo no fato extraordinário que é o espanto da Europa e o júbilo da América na proclamação da República,as duas grandes forças lá estão ungidas uma a outra... A era das grandes lutas da política responsável abriu-se definitivamente para os brasileiros... A pátria abriu as largas asas em direitura à região constelada do progresso; a literatura vai desprender também o vôo para acompanhá-la de perto. Ao futuro ! ao futuro,modeladores de povos,construtores de nações ! [2]

            No clamor pela ampliação da atuação do Estado sobre a sociedade aliavam-se a homens públicos, políticos, jornalistas, até mesmo cafeicultores e industriais ,e a esse grupo juntar-se-ia os grupos militares defensores e sequiosos de maior participação  na política—  o que mais tarde não causaria surpresas quando do progressivo e acentuado  fortalecimento dos governos republicanos a partir de Floriano Peixoto.

         As reformas que preconizavam, no entanto, perderam-se no processo político republicano. Na consolidação do novo regime , que se deu  por meio de um processo caótico e dramático, malograram-se seus esforços cientificistas,reformadores, inovadores na criação daquele ‘saber sobre o Brasil’. Cedo, muito cedo, já nos primeiros anos do século XX desiludiam-se: “Está tudo mudado: Abolição, República... Como isso mudou ! Então, de uns tempos para cá parece que essa gente está doida”, vaticina Isaias Caminha , sob a pena de  Lima Barreto. José Veríssimo, no artigo“Vida literária” (revista Kosmos, n. 7,1904), descreve: “Todos se presumiam e diziam republicanos,na crença ingênua de que a República, para eles palavra mágica que bastava à solução de problemas de cuja dificuldade e complexidade não desconfiavam sequer, não fosse na prática perfeitamente compatível com todos os males da organização social, cuja injustiça os revoltava”. Ainda em outubro de 1890, antes do primeiro aniversário do15 de novembro, desencantava-se Silva Jardim, lamentando em carta a Rangel Pestana: “Comunico-lhe que parto para a Europa, a demorar-me o tempo preciso a que este País atravesse o período revolucionário de ditadura tirânica e de anarquia... . “Esta não é a República de meus sonhos”, lamentou-se Lopes Trovão, um dos próceres do movimento republicano. “Foi para isso então que fizeram a República  ?”, protestou Farias Brito.

         No campo político, os intelectuais mantiveram-se passivos diante da “ditadura tirânica” e aceitaram as coligações de Deodoro da Fonseca com as forças mais conservadoras  do Brasil agrário, mas as esperanças esfacelaram-se diante da índole e prática repressoras do governo Floriano Peixoto , quando  e alguns dos antigos entusiastas da República tiveram de fugir do Rio de Janeiro para evitar a prisão, como Olavo Bilac e Guimarães Passos.

         Passado o momento inicial de esperança, desfeito o caminho almejado da democratização do País prometida em comícios, conferências públicas, na imprensa radical, consolidada a vitória da ideologia reforçadora do poder oligárquico, derrotados ,desapontaram-se as elites, desapontaram-se os trabalhadores e o povo, desapontaram-se os  intelectuais , que desistiram da política militante e se concentraram na literatura,aceitando postos ,mesmo decorativos, na burocracia especialmente no Itamaraty de Rio Branco, que atraíra em torno de si -- eficiente Rui Barbosa nesse trabalho de  ‘cooptação’ -- o grupo de intelectuais, representantes da intelligentsia do novo regime , constituindo o que à época se auto-denominaram “República dos Conselheiros”.

                                                                               (continua)

[1] E. de Moraes , Da Monarquia para a República ; s.ed., Rio de Janeiro, 1936

[2] cf. Silvio Romero,Novos estudos de literatura contemporâneas ; s.ed., Rio de Janeiro, 1898 .

 

 



Escrito por maurorosso às 12h06
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os primeiros Machado - VII : ensaio

O  passado,o presente e o futuro da literatura(continuação)

III

 

              É sem dúvida, por este doloroso indiferentismo que a geração atual tem de encontrar numerosas dificuldades na peregrinação; contrariedades que, sem abater de todo as tendências literárias, toda via podem fatigá-las reduzindo-as a um marasmo apático, sintoma doloroso de uma decadência prematura.

              No estado atual das cousas, a literatura não pode ser perfeitamente um culto, um dogma intelectual, e o literato não pode aspirar a uma exitência independente, mas sim tornar-se um homem social, participando dos movimentos da sociedade em que vive e de que depende.

                Esta verdade, exceto no jornalismo, verifica-se em qualquer outra forma literária. Ora, será possível que assim tenhamos uma literatura convenientemente desenvolvida? Respondemos pela negativa.

                Tratemos das três formas literárias essenciais: -o romance, o drama e a poesia.

                Ninguém que for imparcial afirmará a existência das duas primeiras entre nós; pelo menos, a existência animada, a existência que vive, a existência que se desenvolve fecunda e progressiva. Raros, bem raros, se tem dado ao estudo de uma forma tão importante como o romance; apesar mesmo da convivência perniciosa com os romances franceses, que discute, aplaude e endeusa a nossa mocidade, tão pouco escrupulosa de ferir as susceptibilidades nacionais.

                Podiamos aqui assinalar os nomes desses poucos que se têm entregado a um estudo tão importante, mas isso não entra na ordem deste trabalho, pequeno exame genérico das nossas letras. Em um trabalho de mais largas dimensões que vamos empreender analisaremos minuciosamente esses vultos de muita importância decerto para a nossa recente literatura.

               Passando ao drama, ao teatro, é palpável que a esse somos o povo mais parvo e pobretão entre as nações cultas. Dizer que temos teatro, é negar um fato; dizer que não o temos, é publicar uma vergonha. E todavia assim é. Não somos severos: os fatos falam bem alto. O nosso teatro é um mito, uma quimera. E nem se diga que queremos que em tão verdes anos nos ergamos a altura da França, a capital da civilização moderna; não! Basta que nos modelemos por aquela renascente literatura que floresce em Portugal, inda ontem estremecendo ao impulso das erupções revolucionárias.

               Para que estas traduções enervando a nossa cena dramática? Para que esta inundação de peças francesas, sem o mérito da localidade e cheias de equivocos, sensaborões as vezes, e galicismos, a fazer recuar o mais denodado francelho?

               É evidente que é isto a cabeça de Medusa, que enche de terror as tendências indecisas, e mesmo as resolutas. Mais de uma tentativa terá decerto abortado em face desta verdade pungente, deste fato doloroso.  Mas a quem atribuí-lo? Ao povo? O triunfo que obtiveram as comédias do Pena, e do Sr. Macedo, prova o contrário. O povo não é avaro em aplaudir e animar as vocações; saber agradá-lo, é o essencial.

               É fora de dúvida, pois, que a não existir no povo a causa desse mal. não pode existir senão nas direções e empresas. Digam o que quiserem, as direções influem neste caso. As tentativas dramáticas naufragam diante deste czariato de bastidores, imoral e vergonhoso, pois que tende a obstruir os progressos da arte. A tradução é o elemento dominante, nesse caos que devia ser a arca santa onde a arte pelos lábios dos seus oráculos falasse as turbas entusiasmadas delirantes. Transplantar uma composição dramática francesa para a nossa língua, é tarefa de que se incumbe qualquer bípede que entende letra redonda. O que provém daí? O que se está vendo. A arte tornou-se uma indústria; e à parte meia dúzia de tentativas bem sucedidas sem dúvida, o nosso teatro é uma fábula, uma utopia.

          Haverá remédio para a situação? Cremos que sim. Uma reforma dramática não é difícil neste caso. Há um meio fácil e engenhoso; recorra-se às operações políticas. A questão é de pura diplomacia; e um golpe de estado literário não é mais difícil que uma parcela de orçamento. Em termos claros, um tratado sobre direitos de representação reservados, com o apêndice de um imposto sobre traduções dramáticas, vem muito a pêlo, e convém perfeitamente as necessidades da situação.

            Removido este obstáculo, o teatro nacional será uma realidade? Respondemos afirmativamente. A sociedade, Deus louvado! é uma mina a explorar, e um mundo caprichoso, onde o talento pode descobrir, copiar, analisar, uma aluvião de tipos e caracteres de todas as categorias. Estudem-na: eis o que aconselhamos as vocações  da época!

             A escola moderna presta-se precisamente ao gosto da atualidade. “As mullleres de mármore”— “O mundo equívoco” — “A dama das camélias” — agradaram, apesar de traduções. As tentativas do sr. Alencar tiveram um lisonjeiro sucesso. Que mais querem? A transformação literária e social foi exatamente compreendida pelo povo; e as antigas idéias, os cultos inveterados, vão caindo a proporção que a reforma se realiza. Qual é o homem de gosto que atura no século XIX uma punhalada insulsa tragicamente administrada, ou trocadilhos sensaborões da antiga farsa?

             Não divaguemos mais; a questão está toda neste ponto. Removidos os obstáculos que impedem a criação do teatro nacional, as vocações dramáticas devem estudar a escola moderna. Se uma parte do povo está ainda aferrada às antigas idéias, cumpre ao talento educá-la, chamá-la à esfera das idéias novas, das reformas, dos princípios dominantes. É assim que o teatro nascerá e viverá; é assim que se há de construir um edifício de proporções tão colossais e de futuro tão grandioso.

 

 

 

 

 



Escrito por maurorosso às 23h22
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os primeiros Machado - VII : ensaio

Antes de ser contista ou romancista, Machado fez-se critico – um crítico competentíssimo, profundo conhecedor do material a ser analisado, sóbrio, equilibrado, “alguém com uma consciência aguda dos problemas da linguagem, alguém que sabia dimensionar muito bem os elementos sociológicos, históricos, a relação entre o nacional e o literário”, como acentua Antonio Carlos Secchin. Já como criador de contos e romances, Machado continuou por muito tempo exercendo a crítica -- literária ( passaram por seu crivo ,entre muitos outros, obras de José de Alencar, Araujo Porto Alegre,Álvares de Azevedo,Joaquim Manuel de Macedo,Lúcio de Mendonça,Fagundes Varela, e em especial Eça de Queiroz – com quem, ao comentar o romance O  primo Basílio, acendeu conhecida polêmica que inclusive contagiou o meio cultural de então); teatral (são dele as críticas a trabalhos dramatúrgicos de Castro Alves, Alencar,Macedo,   ); e até de  música  (enquanto parecerista do Conservatório Dramático)—e até 1879, i.e. 21 anos depois de seu primeiro texto de crítica, escreveu  notáveis,antológicos ensaios, como “Idéias sobre o teatro”(1859), “O ideal do crítico”(1865), “Notícia da atual literatura brasileira -- Instinto de nacionalidade”(1873),”A nova geração”(1879).”Perdeu-se, em Machado de Assis, um dos maiores de nossos críticos”, sentenciou Mario de Alencar em 1880, mas Sechin observa  que “ ele transferiu esse olhar crítico para o palco das paixões humanas, num exercício de  crítica oblíqua, que é a sua visão de mundo na ficção.”

Da mais alta qualidade literária, o ensaismo machadiano teve início a  9 abril1858, quando publicou em A Marmota (em 3 folhetins, até dia 23) este “O  passado,o presente e o futuro da literatura” que aqui está

O passado, o presente e o futuro da literatura

 

                                                                        I

 

               A literatura e a política, estas duas faces bem distintas da sociedade civilizada, cingiram como uma dupla púrpura de glória e de martírio os vultos luminosos da nossa história de ontem. A política elevando as cabeças eminentes da literatura, e a poesia santificando com suas inspirações atrevidas as vítimas das agitações revolucionárias, e a manifestação eloquente de uma raça heróica que lutava contra a indiferença da época, sob o peso das medidas despóticas de um governo absoluto e bárbaro. O ostracismo e o cadafalso não os intimidavam, a eles, verdadeiros apóstolos do pensamento e da liberdade; a eles, novos Cristos da regeneração de um povo, cuja missão era a união do desinteresse, do patriotismo e das virtudes humanitárias.

           Era uma empresa difícil a que eles tinham então em vista. A sociedade contemporânea era bem mesquinha para bradar—avante! —aqueles missionários da inteligência e sustentá-los nas suas mais santas aspirações. Parece que o terror de uma época colonial inoculava nas fibras íntimas do povo o desânimo e a indiferença.

          A poesia de então tinha um caráter essencialmente europeu. Gonzaga, um dos mais líricos poetas da língua portuguesa, pintava cenas da Arcádia, na frase de Garrett, em vez de dar uma cor local  às suas liras, em vez de dar-lhes um cunho puramente nacional. Daqui uma grande perda: a literatura escravizava-se, em vez de criar um estilo seu, de modo a poder mais tarde influir no equilíbrio literário da América.

           Todos os mais eram assim: as aberrações eram raras. Era evidente que a influência poderosa da literatura portuguesa sobre a nossa, só podia ser prejudicada e sacudida por uma revolução intelectual.

           Para contrabalançar, porém, esse fato cujos resultados podiam ser funestos, como uma valiosa exceção apareceu o Uraguai de Basílo da Gama. Sem trilhar a senda seguida pelos outros, Gama escreveu um poema, se não puramente nacional, ao menos nada europeu. Não era nacional, porque era indígena, e a poesia indígena, bárbara, a poesia do boré e do tupã, não é a poesia nacional. O que temos nós com essa raça, com esses primitivos habitadores do país, se os seus costumes não são a face característica da nossa sociedade?

           Basílio da Gama era entretanto um verdadeiro talento, inspirado pelas ardências vaporosas do céu tropical. A sua poesia suave, natural, tocante por vezes, elevada, mas elevada sem ser bombástica, agrada e impressiona o espírito. Foi pena que em vez de escrever um poema de tão acanhadas proporções, não empregasse o seu talento em um trabalho de mais larga esfera. Os grandes poemas são tão raros entre nós!

          As odes de José Bonifácio são magníficas. As belezas da forma, a concisão e a força da frase, a elevação do estilo, tudo encanta e arrebata. Algumas delas são superiores às de Filinto. José Bonifácio foi a reunião dos dous grandes princípios pelos quais sacrificava-se aquela geração: a literatura e a política. Seria mais poeta se fosse menos político; mas não seria talvez tão conhecido das classes inferiores. Perguntai ao trabalhador que cava a terra com a enxada, quem era José Bonifácio; ele vos falará dele com o entusiasmo de um coração patriota. A ode não chega ao tugúrio do lavrador. A razão é clara: faltam-lhe os conhecimentos, a educação necessária para compreendê-la. Os Andradas foram a trindade simbólica da inteligência, do patriotismo, e da liberdade. A natureza não produz muitos homens como aqueles. Interessados vivamente pela regeneração da pátria, plantaram a dinastia bragantina no trono imperial, convíctos de que o herói do Ipiranga convinha mais que ninguém a um povo altamente liberal e assim legaram à geração atual as douradas tradições de uma geração fecunda de prodígios, e animada por uma santa inspiração.

     Sousa Caldas, S. Carlos e outros muitos foram também astros luminosos daquele firmamento literário. A poesia é a forma mais conveniente e perfeitamente acomodada às expansões espontâneas de um país novo, cuja natureza só conhece uma estação, a primavera, teve naqueles homens, verdadeiros missionários que honraram a pátria e provam as nossas riquezas intelectuais ao crítico mais investigador e exigente.

II

 

              Uma revolução literária e política fazia-se necessária. O país não podia continuar a viver debaixo daquela dupla escravidão que o podia aniquilar.

             A aurora de 7 de Setembro de 1882, foi a aurora de uma nova era. O grito do Ipiranga foi o - Eureca- soltado pelos lábios daqueles que verdadeiramente se interessam pela sorte do Brasil cuja felicidade e bem-estar procuravam. O país emancipou-se. A Europa contenplou de longe esta regeneração política, esta tansição súbita da servidão para a liberdade, operada pela vontade de um príncipe e de meia dúzia de homens eminentementes patriotas. Foi uma honrosa conquista que nos deve encher de glória e de orgulho; e é mais que tudo uma eloqüente resposta às interrogações pedantescas de meia dúzia de céticos da época: o que somos nós?

           Havia, digamos de passagem, no procedimento do fundador do império um sacrifício heróico, admirável e pasmoso. Dous tronos se erguiam diante dele: um, cheio de tradições e de glórias; o outro, apenas saído das mãos do povo, não tinha passado, e fortificava-se só com uma esperança no futuro! Escolher o primeiro era um duplo dever, como patriota e como príncipe. Aquela cabeça inteligente devia dar o seu quinhão de glória ao trono de D.Manuel e D. João II. Pois bem! ele escolheu o segundo, com o qual nada ganhava, e ao qual ia dar muito. Há poucos sacriícios como este. Mas após o fiat político, devia vir o fiat literário, a emancipação do mundo intelectual, vacilante sob a ação influente de uma literatura ultramarina. Mas como? É mais fácil regenerar uma nação, que uma literatura. Para esta não há gritos de Ipiranga; as modificações operam-se vagarosamente; e não se chega em um só momento a um resultado.

              Além disso, as erupções revolucionárias agitavam as entranhas do país; o facho das dimensões civis ardia em corações inflamados pelas paixões políticas. O povo tinha-se fracionado e ia derramando pelas próprias veias a força e a vida. Cumpria fazer cessar essas lutas fratricidas para dar lugar as lutas da inteligência, onde a emulação é o primeiro elemento e cujo resultado imediato são os louros, fecundos da glória e os aplausos entusiásticos de uma posteridade agradecida.

              A sociedade atual não é decerto compassiva, não acolhe o talento como deve fazê-lo. Compreendam-nos! nós não somos inimigo encarniçado do progresso material. Chateaubriand o disse: " quando se aperfeiçoar o vapor, quando unido ao telegrafo tiver feito desaparecer as distâncias, não hão de ser só as mercadorias que hão de viajar de um lado a outro do globo, com a rapidez do relâmpago; hão de ser também as idéias". Este pensamento daquele restaurador do cristianismo-é justamente o nosso-; nem é o desenvolvimento material que acusamos e atacamos. O que nós queremos, o que qerem todas as vocações, todos os talentos da atualidade literária, é que a sociedade não se lance exclusivamente na realização desse progresso material, magnífico pretexto de especulação, para certos espiritos positivos que se alentam no fluxo e refluxo das operações monetárias. O predomínio exclusivo dessa realeza parva, legitimidade fundada numa letra de câmbio, é fatal, bem fatal às inteligências; o talento pode e tem também direito aos olhares piedosos da sociedade moderna: negar-lhos é matar-lhe todas as aspirações, é nulificar-lhe todos os esforços aplicados na realização das idías mais generosas, dos princípios mais salutares, e dos germes mais fecundos do progresso e da civilização.

                                                                                                                                                     (continua)

 

 



Escrito por maurorosso às 23h21
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Literatura e gastronomia- I : assado de nozes parao Natal

 

 

 

 

o escritor português Camilo Castelo Branco (1825-60)tem no  romance Amor de perdição talvez sua obra mais conhecida pelo público, mas foi ele autor de nada menos do que  50 obras, entre romances,novelas e contos, como p. ex. Onde está a felicidade? , O que fazem as mulheres , Doze casamentos felizes, O romance de um homem rico,Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado , Amor de salvação ,O judeu,A queda dum anjo ,Os brilhantes do brasileiro, A mulher fatal,Novelas do Minho ,Eusébio Macário,A corja ,A brasileira de Prazins 

 

na novela Coração, Cabeça e Estômago (1862) , sucedem-se ao longo da narrativa muitos almoços e jantares – entre eles uma lauta ceia de Natal.que oferece como um dos acepipes um atraente assado de nozes, cuja receita adaptada aos tempos modernos assim é :

 

4 cebolas médias

5 tomates

2 cenouras médias raladas

 

3 fatias de pão (de preferência integral ) esfareladas

1/2 xícara de suco de legumes

100g amêndoas moídas

100g castanhas de caju moídas

 

refogue as cebolas na panela por 5 minutos. junte tomates, cenoura ralada,

farelo de pão, suco de legumes e cozinhe por 15 minutos. junte as castanhas

e amêndoas e despeje numa forma de pão. leve a assar  por

meia hora

 

 



Escrito por maurorosso às 17h52
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por um motivo ou outro, a 1a. parte do conto "Três tesouros perdidos" -- vd. mensagem anterior --não exibiu as notas . ei-las :

 

[1]cabriolé : carruagem pequena, com duas rodas altas e capota móvel, puxada por um só cavalo.

[2] "perder as estribeiras": expressão popular ,que teve sua origem no séc. XIX, até hoje muito usada ,que significa  ‘perder a compostura,  o controle, o comedimento’.

[3] Andaraí: bairro situado na zona norte da cidade do Rio de Janeiro , numa espécie de entroncamento urbano dos vizinhos Tijuca, Engenho  Novo, Grajaú :originariamente dividido entre o Andaraí Grande — área mais residencial —e o Andaraí Pequeno —onde se instalaram fábricas e oficinas, teve também por um tempo as denominações de Fábrica e depois Trapicheiros; na época de Machado era ocupado por chácaras de nobres e pessoas bem situadas economica e socialmente.

[4] "entreum cavalo e a  pistola":algo como  “entre a cruz e a espada”



Escrito por maurorosso às 11h46
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os primeiros Machado - VI : conto (2a. parte de "Três tesouros perdidos")

— Para Minas.

— Oh! a pátria do Tiradentes[1]! Deus o leve a salvamento... Perdôo-lhe, mas não volte a esta corte... Boa viagem!

           Dizendo isto, o sr. F... desceu precipitadamente a escada, e entrou no cabriolé, que desapareceu em uma nuvem de poeira.

               O sr. X... ficou por alguns instantes pensativo. Não podia acreditar nos seus olhos e ouvidos; pensava sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de réis, e a realização de um dos seus mais caros sonhos. Jantou tranqüilamente, e daí a uma hora partia para a terra de Gonzaga[2], deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir, pelo espaço de oito dias, aos  seus amigos sobre o seu destino.

               No dia seguinte, pelas onze horas da manhã, voltava o sr. F... para a sua chácara de Andaraí, pois tinha passado a noite fora.

             Entrou, penetrou na sala, e indo deixar o chapéu sobre uma mesa, viu ali o seguinte bilhete:

“Meu caro esposo! Parto no paquete[3] em companhia do teu amigo P... Vou para a Europa. Desculpa a má companhia, pois melhor não podia ser. — Tua E...”

               Desesperado, fora de si, o sr. F... lança-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha partido às oito horas.

— Era P... que eu acreditava meu amigo... Ah! maldição! Ao menos não percamos os dois contos!               Tornou a meter-se no cabriolé e dirigiu-se à casa do sr. X..., subiu; apareceu o moleque.

— Teu senhor?

— Partiu para Minas.

           O sr. F... desmaiou.

           Quando deu acordo de si estava louco... louco varrido!

            Hoje, quando alguém o visita, diz ele com um tom lastimoso:

— Perdi três tesouros a um tempo: uma mulher sem igual, um amigo a toda prova, e uma linda carteira cheia de encantadoras notas... que bem podiam aquecer-me as algibeiras[4]!...

             Neste último ponto, o doido tem razão, e parece ser um doido com juízo.

                                        

                                                                    FIM  



[1] Machado  cultuava Tiradentes , “o grande mártir”, ‘um homem do povo que sofrera por sua visão de um Brasil  independente’,   dele fazendo tema em várias crônicas (inclusive naquela que marcou o início da importante série “A Semana”, publicadas na Gazeta de Notícias  de 1892 a 1900, reportando-se em tom vibrante,pungente e patriótico,ao centenário de morte do alferes:“(...) a prisão do heróico alferes é das que devem ser comemoradas por todos os filhos deste país,se há nele patriotismo(...)”: o respeito de Machado por Tiradentes vinha de 1860,remonta à sua postura política de então ,como um liberal convicto e militante ; Machado investiu Tiradentes com algo semelhante “a aura cristã do martírio e sacrifício”.

      convém notar porém que Tiradentes tornou-se um símbolo republicano, dele ‘apropriou-se’ o novo regime, inclusive fazendo do dia 21 de abril  feriado nacional, como ícone anti-monarquista . um dos maiores conflitos  políticos em torno da figura de Tiradentes ocorreu  por causa da estátua de d. Pedro I ,inaugurada em 1862 no Largo do Rocio : no lugar onde fora enforcado Tiradentes, o governo erguia uma estátua ao neto da rainha que o condenara à morte infame; Teófilo Otoni, o liberal mineiro líder da revolta de 1842, chamou a estátua de “mentira de bronze”, e Machado participou intensamente dos protestos.  

[2] referência a Tomás Antonio Gonzaga (1744-1810), poeta natural da cidade portuguesa do Porto, mas que viveu em Minas Gerais, um dos inconfidentes de 1789, considerado o mais proeminente dos poetas árcades – de nome arcádico  Dirceu  – autor entre outras obras do célebre poema "Marília de Dirceu" .

[3] navio a vapor,veloz e luxuoso,usado para transporte rápido de passageiros, correspondências e documentos..

[4] bolso  costurado à parte interna da roupa ,que serve para guardar alguma coisa,geralmente dinheiro.



Escrito por maurorosso às 11h36
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os primeiros Machado - VI : conto

Três tesouros perdidos

                                                     

         Uma tarde, eram quatro horas, o sr. X... voltava à sua casa para jantar. O apetite que levava não o fez reparar em um cabriolé [1]que estava parado à sua porta. Entrou, subiu a escada, penetra na sala e... dá com os olhos em um homem que passeava a largos passos como agitado por uma interna aflição.

          Cumprimentou-o polidamente; mas o homem lançou-se sobre ele e com uma voz alterada, diz-lhe:

— Senhor, eu sou F..., marido da senhora Dona E...

— Estimo muito conhecê-lo, responde o sr. X...; mas não tenho a honra de conhecer a senhora Dona E...

— Não a conhece! Não a conhece! ... quer juntar a zombaria à infâmia?

— Senhor!...

           E o sr. X... deu um passo para ele.

— Alto lá!

           O sr. F... , tirando do bolso uma pistola, continuou:

— Ou o senhor há de deixar esta corte, ou vai morrer como um cão!

— Mas, senhor, disse o sr. X..., a quem a eloqüência do sr. F... tinha produzido um certo efeito, que motivo tem o senhor?...

— Que motivo! É boa! Pois não é um motivo andar o senhor fazendo a corte à minha mulher?

— A corte à sua mulher! não compreendo!

— Não compreende! oh! não me faça perder a estribeira[2].

— Creio que se engana...

— Enganar-me! É boa! ... mas eu o vi... sair duas vezes de minha casa...

— Sua casa!

— No Andaraí[3]... por uma porta secreta... Vamos! ou...

— Mas, senhor, há de ser outro, que se pareça comigo...

— Não; não; é o senhor mesmo... como escapar-me este ar de tolo que ressalta de toda a sua cara? Vamos, ou deixar a cidade, ou morrer... Escolha!

          Era um dilema. O sr. X... compreendeu que estava metido entre um cavalo e uma pistola.[4] Pois toda a sua paixão era ir a Minas, escolheu o cavalo.

          Surgiu, porém, uma objeção.

— Mas, senhor, disse ele, os meus recursos...

— Os seus recursos! Ah! tudo previ... descanse... eu sou um marido previdente.

          E tirando da algibeira da casaca uma linda carteira de couro da Rússia, diz-lhe:

— Aqui tem dois contos de réis para os gastos da viagem; vamos, parta! parta imediatamente. Para onde vai?



Escrito por maurorosso às 11h35
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os primeiros Machado - V : conto

Não há a mínima dúvida nem discussão de que Machado de Assis foi um grande,extraordinário contista – dos maiores que a literatura brasileira já produziu, em todos os tempos[ Lucia Miguel-Pereira chegou a sentenciar ser ele “melhor contista que romancista”, in Prosa de ficção:de 1870 a 1920]. Machado escreveu 218 contos --- quase todos publicados originalmente em jornais e revistas(e a maioria incorporada às sete  coletâneas editadas ao longo do tempo: Contos fluminenses, 1869; Histórias da meia-noite, 1873; Papéis avulsos, 1882; Histórias sem Data,1884; Várias histórias,1896; Páginas recolhidas,1899; Relíquias da Casa Velha,1906)  – sendo que um deles, até então desaparecido, consegui encontrá-lo depois de seis anos de busca e pesquisa incessantantes  -- 218 contos que cobrem  praticamente toda sua vida de escritor : o primeiro,  “Três tesouros perdidos”, data de 1858, o último, “O escrivão Coimbra”,  de 1907(um ano antes de Machado morrer).

No conto -- sobretudo no conto – Machado atravessou cronológica e literariamente ,primeiro,o cenário do romantismo (incorporando  elementos indissoluvelmente inerentes a esse ciclo, como p.ex. a narração de paixões arrebatadoras e de aventuras amorosas, a exaltação de sentimentos , a ênfase na ambições de ascensão social , a construção de tramas eivadas de um tipo de humor ‘lírico’ e marcadas pela ironia narrativa – ainda que tênue --envolvendo tanto personagens nobres como populares ,  sob um estilo declamatório,com exagero das hipérboles,etc) ,em seguida do realismo\naturalismo ( com a sondagem e expressão de manifestações da psique humana, a descoberta do mundo da alma, a exposição das nuances da personalidade, o  uso do fantástico, sem fugir da versossimilhança ) e por fim do incipiente pré-modernismo (que surgia exatamente na época em que  Machado morreu).  O conto machadiano, a par de suas qualidades intrínsecas, constituiu-se no grande laboratório de preparação e execução do processo de sua formação intelectual e literária -- na pesquisa e experimentação da linguagem,nos exercícios de estilo, nos esboços de caracteres, nos estudos de estruturação narrativa  -- e daquela aludida  inflexão  consumada em fins dos 1870\início dos 1880.

Escritor de estatura universal, Machado imprimiu a seus contos, mormente os pós-1880, muitos dos temas (e tramas) que seriam característicos da prosa ficcional do séc. XX — o que marca a omnipresente atualidade de Machado,de resto comprovada em várias manifestações de sua literatura. Antonio Candido acentua— in “Esquema de Machado de Assis”, Vários escritos,1970-- que com “sua prosa discreta e elegante, o tom humorístico e  ao mesmo tempo acadêmico, avultam as mais desmedidas surpresas”, pois a ‘cutícula’ de discrição e sobriedade que revestia seu estilo tinha por baixo dela, primeiro de tudo ,a subversão do gênero  literário em que se inseria o conto, depois o  percrustar da alma humana e a crítica mordaz da sociedade .

O primeiro conto de Machado de Assis aqui está : “Três tesouros perdidos”, publicado originalmente em A Marmota ,5 janeiro 1858, depois integrado à  coletânea Páginas recolhidas -2ª. edição,por W.M. Jackson em 1937 na “Coleção Machado de Assis” em 31 volumes(a 1ª. edição desta coletânea,H. Garnier,1899, não contém o conto ].

 

 

 

 



Escrito por maurorosso às 11h33
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os primeiros Machado - IV

Minha mãe

(imitação de Cowper *)

 

                Quanto eu, pobre de mim! quanto eu quisera

                     Viver feliz com minha mãe tambéml

                                                                    C.A.de SÁ

Quem foi que o berço me embalou da infância

Entre as doçuras que do empíreo vêm?

E nos beijos de célica fragrância

Velou meu puro sono? Minha mãe!

Se devo ter no peito uma lembrança

É dela que os meus sonhos de criança

            Dourou: - é minha mãe!

 

Quem foi que no entoar canções mimosas

Cheia de um terno amor - anjo do bem

Minha fronte infantil - encheu de rosas

De mimosos sorrisos? - Minha mãe!

Se dentro do meu peito macilento

O fogo da saudade me arde lento

          É  dela: minha mãe.

         

Qual anjo que as mãos me uniu outrora

E as rezas me ensinou que da alma vêm?

E a imagem me mostrou que o mundo adora,

E ensinou a adorá-Ia? - Minha mãe!

Não devemos nós crer num puro riso

Desse anjo gentil do paraíso

         Que chama-se uma mãe?

 

Por ela rezarei eternamente

Que ela reza por mim no céu também;

Nas santas rezas do meu peito ardente

Repetirei um nome: - minha mãe!

Se devem louros ter meus cantos d'alma

Oh! do porvir eu trocaria a palma

              Para ter minha mãe!

__________________

* William Cowper(1731-1800), poeta inglês 

n A Marmota Fluminense,2 setembro 1856

 

vale ainda expor outro poema, muito peculiar, dessa fase -- no qual Machado evoca o 'byronismo' que influenciara e impregnara a poética de Álvares de Azevedo,para citar o exemplo mais manifesto e enfático, por extensão muito da poesia que se fazia mormente em São Paulo no início da década de 1850. o poema machadiano em questão é "Cognac".

 

Cognac!...

 

Vem, meu cognac, meu licor d'amores! ...

É longo o sono teu dentro do frasco;

Do teu ardor a inspiração brotando

             O cérebro incendeia! ...

 

Da vida a insipidez gostoso adoças;

Mais vai um trago teu que mil grandezas;

Suave distração - da vida esmalte,

              Quem há que te não ame?

          

Tomado com o café em fresca tarde

Derramas tanto ardor pelas entranhas,

Que o já provecto renascer-lhe sente

               Da mocidade o fogo!

Cognac! - inspirador de ledos sonhos,

Excitante licor - de amor ardente!

Uma tua garrafa e o Dom Quixote,

                 É  passatempo amável!

         

Que poeta que sou com teu auxílio!

Somente um trago teu m'inspira um verso;

O copo cheio o mais sonoro canto;

               Todo o frasco um poema!

_________________ 

in A Marmota Fluminense,12 abril 1856

 



Escrito por maurorosso às 12h34
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os primeiros Machado - III

A palmeira

                 a Francisco Gonçalves Braga

 

Como é linda e verdejante

Esta palmeira gigante

Que se eleva sobre o monte!

Como seus galhos frondosos

S'elevam tão majestosos

Quase a tocar no horizonte!

 

Ó palmeira, eu te saúdo,

Ó tronco valente e mudo,

Da natureza expressão!

Aqui te venho ofertar

Triste canto, que soltar

Vai meu triste coração.

Sim, bem triste, que pendida

Tenho a fronte amortecida,

Do pesar acabrunhada!

Sofro os rigores da sorte,

Das desgraças a mais forte

Nesta vida amargurada!

 

Como tu amas a terra

Que tua raiz encerra,

Com profunda discrição;

Também amei da donzela

Sua imagem meiga e bela,

Que alentava o coração.

 

Como ao brilho purpurino

Do crepúsculo matutino

Da manhã o doce albor;

Também amei com loucura

Ess'alma toda ternura

Dei-lhe todo o meu amor!

 

Amei!. .. mas negra traição

Perverteu o coração

Dessa imagem da candura!

Sofri então dor cruel,

Sorvi da desgraça o fel,

Sorvi tragos d'amargura!

 

........................

 

Adeus, palmeira! ao cantor

Guarda o segredo de amor;

Sim, cala os segredos meus!

Não reveles o meu canto,

Esconde em ti o meu pranto

Adeus, ó palmeira!. .. adeus!

________

in A Marmota Fluminense,6 janeiro 1855

 

Ela

 

               Nunca vi, - não sei se existe

                    Uma deidade tão bela,

                    Que tenha uns olhos brilhantes

                    Como são os olhos dela!

                                                     F. G. Braga

                  

Seus olhos que· brilham tanto,

Que prendem tão doce encanto,

Que prendem um casto amor

Onde com rara beleza,

Se esmerou a natureza

Com meiguice e com primor.

 

Suas faces purpurinas

De rubras cores divinas

De mago brilho e condão;

Meigas faces que harmonia

Inspira em doce poesia

Ao meu terno coração!

 

Sua boca meiga e breve,

Onde um sorriso de leve

Com doçura se desliza,

Ornando purpúrea cor,

Celestes lábios de amor

Que com neve se harmoniza.

 

Com sua boca mimosa

Solta voz harmoniosa

Que inspira ardente paixão,

Dos lábios de Querubim

Eu quisera ouvir um - sim _

Pr'a alívio do coração!

 

Vem, ó anjo de candura,

Fazer a dita, a ventura

De minh'alma, sem vigor;

Donzela, vem dar-lhe alento,

Faz-lhe gozar teu portento,

"Dá-lhe um suspiro de amor!"

 

_____________

 in A Marmota Fluminense,12 janeiro 1855

 



Escrito por maurorosso às 12h20
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os primeiros Machado -II

bem, como dizia,o Machado poeta iniciou-se efetivamente em 1855, e aí vão suas duas primeirissimas criações --"A palmeira" e "Ela" -- além da primeira tradução - "Minha mãe".

Manuel Bandeira escreveu que “Machado de Assis poeta tornou-se vítima de Machado de Assis prosador”, evidenciando o quanto de diferença existe entre a obra do contista,do romancista e do cronista e a produção do poeta – mas ressalva que em Ocidentais ,série de poemas que Machado começou a publicar em 1879 na Revista Brasileira (depois editada em coletânea, em 1900) , a maioria dos poemas “têm a mesma excelente qualidade de seus melhores contos e romances”[convém notar que Ocidentais insere-se naquele célebre ‘processo de inflexão machadiano’,um dos marcos da historiografia literária brasileira, dado no final da década de 1870\início de 1880, que gerou p.ex. Memória póstumas de Brás Cubas, Papéis avulsos e tudo,em romances e contos, que veio depois [reporto-me ao que escrevi,na nota 3 do texto “As mulheres preferem os tolos?”, no blog de 08.12 – veja lá].

O Machado poeta,quando se inicia,  prende-se aos padrões do romantismo da época, de autores românticos e até mesmo de alguns árcades—como não poderia deixar de ser : são poemas com  grande preocupação formal,  sempre com linguagem bem cuidada, de temática  amorosa ou lírica.[vale observar que posteriormente,já em Ocidentais, torna-se um perfeito parnasiano, exalta o conceito da "arte pela arte" e a temática é extremamente pessimista, com postura filosófica.

O poeta e crítico(excelente) Alexei Bueno enaltece a poética machadiana :“(...)requintada, harmoniosa, equilibrada, a poesia de Machado de Assis ocupa uma posição singular em nossa literatura ; desde  sua estréia,  em pleno período romântico, ele distinguiu-se dos seus pares pela expressão e o espírito : em versos de técnica apurada, com um certo sabor clássico, o jovem poeta falava de amor, mas sem a ingenuidade, o atropelo e o calor da escola romântica, de suas preocupações com problemas sociais e com a missão do poeta em meio ao desconcerto do mundo(...)—sabendo-se que mais tarde ,em 1870,  os poemas abrigados na coletânea  Falenas , mais ‘amargos’ que o livro anterior[Crisálida,1864], indicam o cansaço do autor com o romantismo e a busca de novos caminhos, a preocupação com a linguagem, a metrificação, as rimas, a forma, enfim, que se tornaria mais visível ainda nas Americanas (1875), para atingir em “Ocidentais”o auge de sua evolução poética, com "poemas cuja perfeição formal não será excedida pelos parnasianos, e cujo pensamento resume a filosofia amarga e desabusada dos livros de prosa da segunda fase" (Manuel Bandeira). Nas Ocidentais encontram-se poemas  de altíssimo nível, dos mais belos da língua em que Camões cantou(...),sustenta Alexei.

 

 



Escrito por maurorosso às 12h07
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Os primeiros de Machado

dou então por iniciado o ‘programa’ traçado em mensagens anteriores. começo pelo começo de... Machado de Assis, o maior nome da literatura brasileira [quem não concordar, que ‘atire a primeira pedra’, quer dizer, ‘palavra’]. Machado é básico,  primordial ,  fundamental – e 2008 se anuncia como o ano do centenário de sua morte (29 setembro 1908), ele então com 69 anos(nascera em 21 junho1839), uma efeméride para estar marcada nos corações e mentes de todos. vamos daqui registrá-la e homenagear Machado[embora saibamos que o nome,a obra e a grandiosidade de Machado estejam acima e além de circunstâncias de momento].

Machado, a par de trabalhar como tipógrafo( depois, tornou-se funcionário público) iniciou-se ,não necessariamente como jornalista –embora em 1860 atuasse como repórter, no Diário do Rio de Janeiro, de Quintino Bocaiúva, cobrindo o Senado Federal –  escrevendo  regularmente crônicas e artigos em pequenos jornais , caso de O Paraíba, de Petrópolis (1858-59) e , como crítico teatral, na revista 0 Espelho(1859/60[ se quiserem saber mais sobre a seqüência inicial da colaboração  de Machado na imprensa aí vai: no Correio Mercantil (1858/64), no Diário do Rio de Janeiro (1860/69), na  Semana Ilustrada (1860/1875)]

mas o que pretendo expor aqui é uma série de textos abrigando as primeiras produções literárias de Machado, seguindo sua respectiva ordem cronológica.

a primeiríssima peça de criação machadiana foi um poema intitulado “Sonetos” , dedicado a uma misteriosa  "Ilma. Sra. D.P.J.A.", publicado em 1854 , com a assinatura J. M. M. Assis, no Periódico dos Pobres poema esse de que se tem notícia mas nenhuma  cópia conhecida (perdeu-se no tempo,na então incipiência autoral de Machado e na insignificância da qualidade literária.do texto...).

o que ficou devidamente registrado, como peças debutantes, foram os  poemas “A palmeira”,estampado na edição de 6 janeiro 1855 no jornal A Marmota Fluminense, de Paula Brito (o tipógrafo,livreiro e editor de enorme e crucial influência na vida de Machado), no qual Machado escreveu até 1862, seguido do poema "Ela", publicado nesse mesmo jornal em 12 janeiro, e da tradução – sua primeira tradução [ para quem não sabe : Machado foi tradutor, e dos mais criativos – explicarei um dia aqui]— do  poema "Minha mãe" ,original de   William Cowper,publicado em 2 setembro 1856, também em A Marmota Fluminense (a partir de 1857 o jornal passou a intitular-se apenas A Marmota)

 

no próximo bloco\blog, os poemas..

 

 

 



Escrito por maurorosso às 20h25
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declaração de iprincípios, ou melhor de intenções

   

 ainda sobre o que anunciei em mensagem anterior:, não vou  exclusivamente fazer circular aqui “textos e autores canônicos(...)obras clássicas da literatura brasileira, definidos comoobras-primas que lastreiam e moldam a cultura nacional(...)”, mas procurar difundir

   ●  textos e autores relevantes na historiografia literária, por sua temática, característica de reflexo de costumes, por sua técnica textual, importância no contexto literário de suas épocas;

         ·      textos e autores  que apesar de sua qualidade literária e de seu valor não receberam o devido destaque ou caíram no esquecimento;

        ·       textos e autores marcados por ousadia e inovação, quer temática quer estilística, evocando temas tabus e desafiadores de preconceitos, que retratem a sociedade de suas épocas, contenham teor político e social__ mas também mundano e comportamental;

        ·        textos e autores  considerados contestadores, polêmicos, criticados e marginalizados em determinados períodos;

        ·        textos e autores  inovadores quanto ao gênero literário, à temática, ao estilo; títulos que mostram facetas e talentos pouco conhecidos de escritores consagrados;

       

estarão aqui ,além de textos e autores integrantes de uma espécie de  cânone, aqueles esquecidos pela historiografia literária e pela crítica, ainda que tenham sido consagrados pelo público de suas respectivas épocas, aqueles que  evoquem temas  atuais e sejam polêmicos mesmo para os padrões de hoje, etc etc.

 

tenho o objetivo explícito de atingir  todo tipo de público, é claro, mas irei  me dirigir principalmente  às pessoas  interessadas, em sua essência, na literatura .isso é primordial.

sem deixar de dizer que quero, sim, poder contribuir para a formação didática e paradidática de muita gente e conferir a este espaço um cunho de utilidade educacional..

 

pretensão em demasia ?  talvez – mas desprovida daquelas  empáfia e jactância detestáveis que tornam as melhores intenções repulsivas.

verão que no final das contas este espaço lhes será útil e dele gostarão. assim espero e me esforçarei por servir e agradar a muitos.

 

 "de todas as coisas humanas, a única que tem o fim em si mesma é a arte"[Machado de Assis]

 

 

 



Escrito por maurorosso às 18h44
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abro um espaço entre as  palavras para uma das mais belas construções de imagens dos últimos momentos. um vídeo que dignifica a cultura e encanta corações e mentes.

http://br.youtube.com/watch?v=_2rnl0IzR_M



Escrito por maurorosso às 17h42
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