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isso é grave
da mídia de hoje :Tradutores protestam contra plágios reportagens da Folha sobre casos de editoras que copiam traduções motivaram abaixo-assinado
Uma centena de tradutores brasileiros divulgou anteontem um abaixo-assinado manifestando repúdio pela prática de plágio de traduções consagradas, que editoras como a Martin Claret e a Nova Cultural teriam cometido, como a Folha noticiou com exclusividade nos dias 4/11 e 15/12.
"Declaramos repudiar toda e qualquer prática ilegal e imoral dessa natureza, que constitui, no que concerne a nós, um abuso da propriedade moral de obras de criação intelectual nova", diz um trecho do abaixo-assinado, que também está disponível em um blog criado pelos profissionais (assinado- tradutores.blogspot.com).
"O elemento galvanizador foi a matéria da Folha no [último] sábado", disse Denise Bottman, tradutora de obras como "Cultura e Imperialismo", de Edward W. Said.No texto a que se refere Bottman, o jornal noticiou a publicação, pela Nova Cultural, de uma tradução de Voltaire que tem a mesma estrutura e erros cometidos no original de Mario Quintana -a editora diz que determinou auditoria e "criteriosa apuração", mas não forneceu dados do tradutor.
Antes, em novembro, outro texto na Ilustrada apontava dois casos envolvendo a Martin Claret, que publicou traduções plagiadas de "Os Irmãos Karamazov" e "A República".
"Estamos defendendo um patrimônio cultural que levou quase um século para ser construído nesse país", disse Bottman, que assina o manifesto.
primeiro de tudo, há de se denunciar veementemente, com todas as letras, e repudiar de todas as formas essas duas editoras.
vale ainda conhecer um livro e um autor que muito têm a dizer sobre essa arte para poucos.
A arte de traduzir, de Brenno Silveira (editora Unesp\ editora Melhoramentos), que durante anos reuniu erros e acertos de traduções literárias e, com didatismo, os reproduziu neste livro que influenciou gerações de profissionais,”(...) conscientizando-os de que devem ir além das letras, seguindo uma conduta ética, exercendo as qualidades essenciais do tradutor: humildade intelectual, paciência, fidelidade ao pensamento e emoção do original e cultura geral, não só literária, como também psicológica e histórica, além do pendor artístico(...)"
Escrito por maurorosso às 13h27
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contemporâneo da posteridade- III
Por outro lado, um certo viés de reticência oferece o ensaísta Roberto Ventura . Em texto ainda inédito, ressalta que “Os sertões é obra híbrida que transita entre a literatura, a história e a ciência, ao unir a perspectiva científica, de base naturalista e evolucionista, à construção literária, marcada pelo fatalismo trágico e por uma visão romântica da natureza. Euclides da Cunha recorreu a formas de ficção, como a tragédia e a epopéia, para estilizar a guerra de Canudos e inserir os fatos em um enredo capaz de ultrapassar a sua significação particular”, mas defendia a tese de que “Euclides interpretou a Guerra de Canudos a partir de fontes orais, como os poemas populares e as profecias religiosas encontrados em papéis e cadernos nas ruínas da comunidade. Baseou-se em profecias apocalípticas, que julgou serem da autoria de Antônio Conselheiro, para criar, em Os sertões, um retrato sombrio do líder da comunidade”. Segundo Ventura, os sermões de Antônio Conselheiro, recolhidos em dois volumes manuscritos a que Euclides não teve acesso (as prédicas e discursos de Conselheiro constam de um caderno manuscrito encontrado em Canudos, após o fim da luta, por João de Sousa Pondé, médico que participou da campanha como cirurgião da última e vencedora expedição militar ;o escritor baiano Afrânio Peixoto , por sua vez, passou-os a Euclides da Cunha, quando Os sertões já estavam publicados. Euclides morreu poucos meses depois e não se sabe se teve tempo de folhear os manuscritos do Conselheiro) mostram um líder religioso muito diferente do fanático místico ou do profeta milenarista : revelam um sertanejo letrado, capaz de exprimir, de forma articulada, suas concepções políticas e religiosas, que se vinculavam a um catolicismo tradicional, corrente na Igreja do século XIX.
Ventura aponta que a leitura dos textos de Antônio Conselheiro traz uma surpresa instigadora: têm um nível considerável de organização, com uma distribuição e uma seqüência lógica dos assuntos; são gramaticalmente bem estruturados e seu conteúdo religioso, longe de qualquer aberração, é equilibrado e bastante próximo do texto bíblico.No discurso "Sobre a República" ,por exemplo, estão expostas as idéias de Antônio Conselheiro em que “se pode observar um conteúdo mais político, embora sempre determinado pela religião. A premissa fundamental do texto é a de que a República deseja acabar com a religião e por isso é nociva ao povo sertanejo; a República é criticada como ‘assunto que tem sido o assombro e o abalo dos fiéis’. Vista como grande mal para o Brasil, sua implantação é debitada à ‘incredulidade do homem’. Na ótica do Conselheiro, a deposição do monarca contrariava a vontade divina, pois ‘todo poder legítimo é emanação da Onipotência eterna de Deus’. “Tratava-se, portanto, de uma questão de princípio sustentada por um dogma religioso que fundamentava sua posição contrária ao regime republicano. Para ele, combater a República era defender a religião”, escreveu Ventura.
Dessa forma, a visão de Euclides acerca de Canudos torna-se complexa e problemática. Segundo o ensaísta, o discurso de Euclides da Cunha é ambíguo,” marcado por um torneio retórico de antíteses, em que Antônio Conselheiro, seus seguidores e Canudos emergem da análise num jogo de contradições, ora positivados e admirados, ora negativados e execrados. Isso mostra o impasse de Euclides diante da realidade observada, diante da dimensão humana do conflito e diante das limitações do seu método de análise. Todavia, pode-se considerar que o seu distanciamento cultural se mantém em todo o percurso do livro”. Todavia, ressalvou Ventura, “Euclides fixa a consciência de que os canudenses não representavam uma ameaça real à instituição republicana, pois não constituíam um movimento político organizado na tentativa de restaurar objetivamente a Monarquia, e assim procura mostrar que as idéias contrárias à República eram resultantes do atraso civilizatório, do estado de ‘ignorância’ em que se encontrava a população sertaneja. Sob essa ótica, a luta necessária não seria feita através da força militar e dos canhões, mas sim da educação, das letras, das luzes, no processo de introdução dos sertanejos ao progresso, incorporando-os à nacionalidade”. E Roberto Ventura concluía :”Esta constatação abre o caminho para a autocrítica e para a revisão de idéias anteriores, como a de que Canudos era ‘A nossa Vendéia’. A partir disso, Euclides interpreta a intervenção militar como um erro histórico, como um ‘crime da nacionalidade’ contra patrícios, de que seu livro se oferece como denúncia e libelo.” Em sua interpretação , Euclides foi além da narração da guerra, ao construir uma teoria do Brasil cuja história seria movida pelo choque de etnias e culturas, e lançou seu brado de alerta: ‘estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos.’
Desse modo, independentemente da perda de sua vitalidade conceitual, a permanência e a atualidade de Os sertões se devem à veemência de sua denúncia, à sua pertinência histórica e à sua excelência literária, o que o sustenta como um marco fundamental da cultura brasileira. Por todas suas implicações, significações, interpretações e nuances, um livro enfim que veio afirmar novos valores e novos temas de literatura e ciência, obra com a rara qualidade de possibilitar aproximação plural e múltiplas leituras __ entre elas uma reinterpretação do Brasil, renovado com a descoberta dos sertões.
Os sertões recebem, de Gilberto Freyre, uma interpretação que sublinham seu caráter ‘fundador e canônico’. O autor de Casa grande & senzala apontava “a eternidade e incolumidade” da obra diante de um movimento cada vez mais radical de mudança de eixo para interpretação dos fenômenos sociais: o conceito de raça, pelos idos de 1940, como explicativo para o social, estava sendo derrubado, e as ciências sociais proclamavam sua autonomia frente às ciências da natureza. “Como então Os sertões, que tinha em grande medida como quadro conceitual as ciências da natureza, mantinha-se [e mantém-se] atual, glorificado em edições e mais edições, traduções ? Como resistiu ao movimento de releitura da raça como fator de inferioridade, explicativo da sua gênese ?”, indaga Freyre, para ele mesmo responder : “porque Euclides da Cunha, ainda que resvale no pessimismo dos descrentes da capacidade dos povos de meio-sangue para se afirmarem em sociedades equilibradas e organizações sólidas, uma descrença lastreada no fatalismo da raça, no determinismo biológico,ao tentar compreender a psicologia do sertanejo, fez um ensaio revelador sobre a formação do homem brasileiro. Desmistificou o pensamento vigente entre as elites do período, de que somente os brancos de origem européia eram legítimos representantes da nação. Mostrou que não existe no país raça branca pura, mas uma infinidade de combinações multirraciais. Previu um destino trágico para o Brasil, se o país continuasse a não levar em conta as diversas raças que o formaram. Mostrou que o Brasil tinha contradições e diferenças étnicas e culturais extremas. Concluiu que havia uma necessidade imperiosa de se inventar uma raça. Caso contrário, o Brasil seria candidato a desaparecer”.
Apesar de imerso num contexto intelectual e sociológico onde predominava o determinismo biológico, Euclides teve, no entender de Freyre, a lucidez de perceber que “o movimento do Conselheiro foi principalmente um choque violento de culturas: a do litoral modernizado, urbanizado, europeizado, com a arcaica, pastoril e parada dos sertões. E esse sentido social e amplamente cultural do drama, ele percebeu-o lucidamente, embora os preconceitos cientificistas, principalmente o da raça, lhe tivessem perturbado a análise e interpretação de alguns dos fatos de formação do Brasil que seus olhos agudos souberam enxergar, ao procurarem as raízes de Canudos". Ao tecer o perfil de Euclides da Cunha como escritor além de seu tempo, intuindo o primado do fator cultural no estudo das sociedades num ambiente intelectual, sociológico e antropológico em que predominava a noção de raça como elemento explicativo do social, Gilberto Freyre propõe nova atualidade para o autor de Os sertões.
A atualidade e modernidade de Os sertões __ mais: sua ‘eternidade’ __ está em ser entendido como verdadeiro fenômeno cultural, inserido no cenário de constituição e transformação do pensamento social sobre o Brasil. “Euclides da Cunha é o intelectual brasileiro que mais se interessou em conhecer mesmo o Brasil por dentro”, vaticina o crítico e ensaísta Luiz Costa Lima. ”Os sertões deixou um retrato, um cenário que não pode nunca ser esquecido”, completa .
Costa Lima sustenta ser “Os sertões obra de estranhamento e paradoxos” , e especula : “pode uma obra ser ao mesmo tempo ficcional e não-ficcional? pode , na medida em que recicla e faz repensar o papel desempenhado pelo discurso científico e pelo discurso literário”. Lima argumenta que Euclides constrói na verdade ”uma dupla inscrição, uma estrutura narrativa que supõe o ajuste de um centro tematizado com bordas e molduras”. Nisso residiria exatamente o ‘estranhamento’ , porquanto “o texto se desgarra do centro férreo __ ‘cientificista’__ e se mostra sob a forma de ‘ilhas’, nas bordas em que uma espécie de representatividade teatral vence a intencionalidade autoral”. O que , no entender de Lima, entre muitos outros aspectos torna a obra absolutamente genial.
Euclides da Cunha mostra-se sempre um intelectual preocupado em "pensar" o Brasil dentro de um momento histórico e complexo processo de formação de uma sociedade que fosse capaz de integrar os diversos grupos humanos (litoral e sertão) na definição da identidade nacional. Com toda justiça passou a ser reverenciado como o primeiro autor a escrever um ‘clássico’ no Brasil, uma obra de peso, científica, densa, consistente, vigorosa, que até então só podia ser encontrada em autores e livros estrangeiros. E ter um ‘clássico nacional’ adquiria valor especial : igualava-nos às nações civilizadas do mundo moderno da época.
A criação de Os sertões faz parte do rol dos ‘grandes momentos’ da história do Brasil, e não é por acaso que tenha atravessado um século como obra mater, ‘bíblia da nacionalidade’ e seja fadado à posteridade.
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Factualidade, por ser antes de tudo de uma obra jornalística (mas tão grandiosa que abriga outras características), livro de um jornalista, “o maior feito jornalístico das letras brasileiras ou o maior feito literário do jornalismo brasileiro”, ao retratar um dos episódios mais marcantes da história republicana, registrar o conflito “elite x povo”, “sertão x litoral”, “monarquia x república”, e sobretudo expor condições e situações sociais e culturais de contingentes populacionais, obra que é “uma epifania de brasilidade, uma fala do Brasil”.
Perenidade, em sendo um cânone literário, por constituir-se uma das obras fundadoras da nacionalidade, “a mais representativa da cultura brasileira de todas as épocas”, capaz de expressar importantes dilemas nacionais que extrapolam a própria narrativa da tragédia de Canudos; obra incluída entre os textos fundadores, fontes da historiografia literária : Euclides, ao lado de Manuel Bonfim e Gilberto Freyre, como um dos pioneiros grandes intérpretes do Brasil ; um dos textos básicos de “história e construção do pensamento brasileiro” , um acervo formado por obras de Gonçalves de Magalhães, Francisco Varnhagen, Marquês de Maricá, Joaquim Norberto de Souza e Silva , José do Patrocínio. Perenidade, ainda, por ser inovadora de uma literatura-denúncia;
Atualidade por “chamar a atenção para os excluídos”, denunciar uma questão social, expor mazelas e injustiças, a miséria, a fome, registrar “tendências conflituosas da sociedade brasileira”, enfocar “um Brasil injusto e dividido”, anotar a religiosidade, a crendice, o misticismo e o messianismo __ algo sempre latente no cenário político brasileiro (a eterna expectativa pelo ‘pai da Pátria’, pelo ‘salvador da Pátria’).
Sobretudo, a atualidade da obra deve-se à inquietação que seu caráter de denúncia provoca, um livro que oferece a oportunidade de ,a partir de Canudos, ter uma visão clara de questões de origens sociais.
Os sertões diz muito de um drama da história brasileira, e também de dramas dos tempos atuais.
Escrito por maurorosso às 22h49
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contemporâneo da posteridade- II
É com Euclides da Cunha que se perfaz a revelação intelectual e afetiva do sertão, do “Brasil oculto e verdadeiro”. Os sertões emblematiza ainda a retratação do cientifismo de Euclides, de seu determinismo geográfico e racial, emprestado do darwinismo social __ antes convencido da inferioridade das “raças fracas”, mas rendido à descoberta de que ser o sertanejo ‘um forte, uma rocha viva’...Não poderia deixar de ser, nem ser de outra forma : o contexto apontava para isso. O cientificismo de Euclides __ de resto, comum a toda sua geração __ era emprestado do ‘darwinismo social’(gerado pela publicação do livro A origem das espécies, de Charles Darwin em 1859) , propugnante da tese de superioridade de raça ,o conceito de raça ultrapassando o campo da biologia, se estendendo à cultura e à política, desvirtuando ou ‘adaptando’ as teorias darwinistas no que fosse mais conveniente, utilizando o que combinava e descartando o que era problemático para a construção de um argumento racial no país. A vertente cientificista buscava encontrar as leis que organizavam a sociedade brasileira, que determinavam a formação do gênio, do espírito e do caráter do povo ; recorrendo à leis e métodos gerais, seria possível encontrar as especificidades da evolução brasileira e, assim, deduzir seu rumo. Ao lado da influência de Comte, o evolucionismo de Darwin e de Spencer dispôs Euclides a aceitar, com excessiva confiança, as "leis" sobre os caracteres morais das raças que tanto acabariam pesando na elaboração de Os sertões.
O naturalismo/realismo era acima de tudo “uma extensão literária da mentalidade cientificista em que o espírito positivista, ‘a glorificação do fato’, dominava o cenário intelectual, eliminados os últimos resquícios da educação humanística, dando livre curso à religião da ciência. Repudiando em bloco o espiritualismo da fase romântica, a ‘geração de 1870’ adere em massa ao empirismo materialista __ e Euclides é dessa geração; nela nasceu, nela viveu e por ela foi formado __ daí ser o romance realista uma “narrativa de tese”, uma narrativa que comprova o encadeamento causal dos acontecimentos, exibindo sua dependência de fatores biológicos ou ecológicos.
É preciso no entanto saber que por volta de 1894, Euclides já entregara-se com fervor aos estudos brasileiros, passando da geologia à botânica, da toponímia à etnologia: o acervo de conhecimentos que então carreou formaria a base científica de Os sertões. Foram anos de estudo intenso e variado :ao lado das ciências naturais, da geografia e história brasileiras, Euclides embebia-se dos clássicos portugueses cuja. sintaxe e vocabulário deixariam não poucos sinais em Os sertões.Foram também anos de interesse pelas ideologias renovadoras que já encontravam eco em um Brasil em fase inicial de industrialização. Sabe-se que Euclides se achegou ao grupo socialista de São José do Rio Pardo, mas teria sido antes um observador simpático do que um militante convicto: o que importa, porém, é a assimilação de critérios progressistas na gênese de sua obra __ já denotado em Os sertões __ principalmente nos últimos escritos, dentre os quais é texto exemplar o artigo "Um velho problema", de 1904, página candente de “repúdio à exploração da classe operária”.
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Euclides da Cunha, embora Os sertões fosse o seu primeiro livro, já havia atingido um alto estágio de amadurecimento, revelando nessa obra um perfeito domínio da língua e uma clara consciência da sua arte : o crítico Wilson Martins, por exemplo, reconhece que todos os elementos que formam o estilo euclidiano , e que em qualquer outro escritor” poderiam resultar em desastre”, salvam-se graças ao “poder transfigurador do grande artista da palavra que nele preexistia”. O crítico e ensaísta Alfredo Bosi sustenta que pode-se ler a obra principal de Euclides aproximando-a da prosa do seu tempo: naturalista no espírito, acadêmica no estilo”.Bosi argumenta ainda que Euclides não se teria tornado um dos nomes centrais da cultura brasileira pelo determinismo estreito das idéias nem pelo rebuscado da linguagem : Euclides implementou “uma consistência nova em nossas letras: o estatuto da contradição , expressa no livro em forma de opostos inconciliáveis”. Contradição e jogo de opostos, dicotomia tese/antítese que de resto constituem a essência mesma de toda a obra euclidiana __ os ‘contrastes e confrontos’(que deram título, aliás, a uma delas)
A questão de originalidade e autenticidade de Os sertões em última análise nada mais seria do que reflexo da personalidade de Euclides. Se o estilo é natural e original, “ele escreve o que vem de dentro, como sente”, nas palavras de José Verissimo, diferencia-se do escritor guiado apenas por sua subjetividade, pois examina a realidade exterior com as lentes da ciência, procurando o distanciamento __ outra das características apontadas pelos críticos: o ecletismo,o jogo de oposições, de tese e antítese( na melhor acepção da filosofia‘hegeliana’),de ‘contrastes e confrontos’, presente da primeira obra a todos os escritos posteriorede Euclides , em que trata de “assuntos mais opostos, psicologia, socialismo, religião, política, envoltos em problemas de história, pátria, imigração, povoamento, indústria, engenharia”, como chamou a atenção Araripe Junior.
“Os sertões permanece atual, desafiando o tempo”,sustenta a ensaísta Walnice Nogueira Galvão. “O papel de Euclides da Cunha na construção da memória da Guerra de Canudos é fundador”, reitera; “Os sertões narra a conversão de Euclides, que foi para lá levar a civilização e o progresso e, quando viu, estava levando o massacre dos pobres; o livro fez por uma insurreição popular o que nenhum outro foi capaz de fazer, no país: alçou-a a tragédia paradigmática, mediante o louvor à coragem do sertanejo”. E dessa maneira, sentencia Walnice, “legou seu libelo à posteridade”.
José Guilherme Merquior ressaltou “uma eletricidade abertamente monumentalizante” nas páginas de Os sertões__ obra que para ele era antes de mais nada “uma retratação”, no caso uma dupla retratação: retratação do republicano que condenara dogmaticamente, sem procurar a princípio entender o fenômeno, o “obscurantismo reacionário dos jagunços de Antônio Conselheiro”, e que em contato direto com a realidade, o ambiente, o hinterland, foi levado a reconhecer “o heroismo anônimo das populações seretanejas”.
Seriam contradições, sustentava Merquior, que por mais que turvem a coerência da visão cientificista de Euclides, depõem em favor de sua honestidade intelectual, enriquecem em especial a significação sociológica e estética de sua saga sertaneja. O alcance épico da rebelião que ele pintou em cores ‘poéticas e literárias’, fruto de sua própria transfiguração artística, teria sido basicamente o que levou a crítica a comentar “o romance que pulsa sob Os sertões” __ sob a bitola da “linguagem rutilante, da ornamentação verbal”. Mas em Euclides há mais esplendor verbal do que simples ‘ornamentação’, afirmou Merquior.
Para Merquior, “Os sertões. é o clássico do ensaio de ciências humanas no Brasil”, numa época, enfatiza, em que os estudos sociológicos ainda conservavam muitas afinidades com a formação humanística. É exemplo notável de uma “intelectualização da literatura”, num livro meio científico meio literário que abordou “alguns temas atualissimos da pesquisa antropológica”: um deles, da mística do advento do Reino de Deus por intermédio do messias Conselheiro __ e aqui surge o tema do messianismo e do sebastianismo ( dos mais polêmicos : no que tange ao caso de Canudos, guarde-se as devidas cautelas acerca das peculiaridades e acepções que “a mais famosa, dramática e peculiar manifestação messiânica brasileira , simbolizada pela figura de Antônio Conselheiro , afirmando ou negando o índice messiânico daquela comunidade); outro, “o fato de Euclides da Cunha ter sentido muito lucidamente o problema da definição sociológica de certas formas de anormalidade mental”, escreveu Merquior. Ao reconhecer o entrosamento dos aspectos irracionais da personalidade do ‘profeta de Canudos’ com as aspirações e carências de uma comunidade rústica, sufocada por flagelos naturais e indiferença das camadas dominantes, Euclides “intuiu brilhantemente a natureza psicossocial da noção de loucura, dessa ‘zona mental onde se acotovelam gênios e degenerados’; sobre Antônio Conselheiro, cujo delírio místico traduzia o desespero de uma sociedade, Euclides afirmou que ‘foi para a História como poderia ter ido para o hospício’. Vale dizer, “o positivista Euclides suspeitava da existência de uma ‘sociologia do psiquismo’, do mesmo modo que o darwinista social constatara a força titânica das ‘raças inferiores’. Fulgurante pela transbordante energia poética de seu estilo narrativo, Os sertões sobrevive ad eternum também por seus inovadores vislumbres sociológicos __ inéditos e ‘revolucionários’ para a época, absolutamente válidos e instigantes hoje”, sublinhou Merquior.
Berthold Zilly, professor no Instituto Latino-americano da Freie Universität Berlin e o tradutor alemão de Os sertões , registra: “Euclides da Cunha chamou a atenção para os excluídos em obra fundadora da nacionalidade”. E observa que “o escritor é mais clarividente do que o pensador. O ideólogo republicano e cientificista Euclides da Cunha cada vez mais cede lugar ao patriota e homem cheio de empatia e de compaixão do mesmo nome, que se considera ´narrador sincero´, representando a realidade através de um ´consórcio’ da ciência e da arte”.Zilly destaca que entre as suas visões inovadoras merece destaque a valorização da mestiçagem como processo fundamental para a formação da sociedade sertaneja e brasileira. “Na história do pensamento social do país, Euclides, com sua elevação do sertanejo a herói nacional, constitui importante elo de ligação entre o viajante alemão Martius , que no seu tratado ‘Como se deve escrever a história do Brasil’, publicado em 1844, reinterpretou a mestiçagem como processo necessário e positivo para a constituição do Brasil como nação , e o sociólogo Gilberto Freyre, com seu ensaio clássico Casa-Grande e senzala” . A glória e a atualidade de Os sertões , registra Zilly, nem tanto se devem às informações e às reflexões sobre a guerra e o sertão, que se encontram em numerosos outros escritos da época, mas principalmente “à sua arte encenatória, sugestiva e plástica, à sua força imagética, à sua prosa altamente retórica e poética, entre sarcástica e sublime, à sua teatralização do meio, dos eventos e dos personagens; o caráter sagrado do sertão, na visão dos canudenses, passa para a obra, o assunto santifica o texto. Raramente na história da literatura a identificação entre uma realidade e a sua representação é tão intensa quanto em Os sertões”.Segundo Zilly, é isso que explicaria o extraordinário êxito junto ao público letrado, à opinião pública, aos críticos literários e aos próprios historiadores, “ justamente, o caráter abrangente da obra, que pode ser encarada como summa, e ainda sua indefinição, ou melhor, a multiplicidade de gêneros literários que condensa, sua capacidade de congregar as mais variadas informações, atitudes, formas de enunciação — relatos, poemas, pichações de paredes, artigos e livros sobre a guerra — incorporando, portanto, vários tipos de texto: crônica, lenda, depoimento, diário, tratado geográfico, etnográfico e historiográfico, formas populares simples e ainda romance, ensaio, discurso forense e político, oração fúnebre, tudo amalgamado num estilo relativamente coeso, próprio, inconfundível”. Enfatiza que o livro reúne as três formas básicas da literatura — a epopéia, o drama e a lírica — “um livro-síntese de temas, pontos de vista, métodos de pesquisa e ideologias, quase uma enciclopédia do sertão, que ‘digere’ todo tipo de texto anterior sobre o assunto, obra polissêmica, por isso mesmo sugestiva, instigadora da imaginação do leitor, radicaliza suas contradições, exacerba os paradoxos. Os sertões são muitos livros em um só”
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Escrito por maurorosso às 22h47
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contemporâneo da posteridade- I
não se pode deixar o mês de dezembro se encerrar, e com ele o ano, sem o registro de 105 anos de publicação -- melhor dizendo, de vida (eterna) -- de uma das obras fundamentais da literatura brasileira,verdadeira opera-master,e o primeiro bestseller da história literária nacional : Os sertões, de Euclides da Cunha.
“Só as obras bem escritas hão de passar à posteridade" :palavras lapidares escritas por um naturalista, o conde de Buffon (mais conhecido por uma frase que se tornou famosa :’le style c'est l'homme même’), ao tomar posse na Academia Francesa, em 1753.
Os sertões estão fadados à posteridade. A obra-prima de Euclides da Cunha, completa 105 anos celebrada por muitos, muitissimos motivos __ em especial por sua espantosa atualidad
Já se falou e escreveu __ vai-se falar e escrever sempre, ao que parece __ de sua linguagem difícil : o que não o impediu de ser o primeiro best-seller da história editorial brasileira , com três edições sucessivas no lançamento, a 2 de dezembro de 1902, (ou seja, cinco anos após o fim de Canudos), pela editora Laemmert, e de ser consensualmente considerado “o livro do Brasil”, “a obra número 1”. É bom lembrar que o “livro vingador” __ assim ele mesmo, Euclides da Cunha, o batizou, ao lançá-lo __ teve sua primeira edição de 2 mil exemplares, rapidamente esgotados, custeada com recursos próprios do autor
O que mais dizer de um livro que conta com mais de 30 edições em português, traduzida em 3 idiomas, em mais de 60 países__ em muitos deles foram feitas traduções sucessivas, em tentativa de contínuo aprimoramento. Mas, por outro lado, é equivocado pensar que sobre Os sertões tudo já foi dito, lido,ouvido e escrito : muito há o que comentar, muito o que refletir, muito até mesmo o que de críticas e ressalvas ouvir e ler, muito o que debater e meditar.
O que fez ,e faz, Os sertões tão célebre?
A consagração de Euclides e de sua obra se de um lado foi, à primeira vista, um fato relâmpago e inesperado __ um anônimo engenheiro e pouco conhecido jornalista ter se transformado no mais celebrado escritor do país, na época __ de outro está sedimentado por dois fatores básicos: 1) a aceitação de alguns conceitos –chave de Os sertões relacionava-se com um longo trabalho de imposição de novas idéias e concepções e de novos valores que vinham sendo gestados no país há pelo menos 30 anos __ o cientificismo da ‘geração 1870’; 2) a consagração-relâmpago foi impulsionada por alguns dos críticos literários mais importantes do país, José Verissimo, Araripe Juniorr e depois Silvio Romero__ além de Roquette-Pinto. Todos enalteceram , insistindo em signos de raridade na obra, mostrando o quanto texto, tessitura, forma, estrutura e conteúdo escapavam do comum, do conhecido.__ e os ensaios críticos que vieram em sequência, ao longo dos anos(e até hoje), enfatizam esse caráter de descobertas de verdades fundamentais para o destino do país, como “a tese dos dois Brasis”, a necessidade de olhar para o interior, para “o Brasil real”. O consenso era de que Os sertões não podia ser comparado a nenhum outro livro: era “uma bíblia permanentemente aberta para interpretações, vindas de diversas áreas : literatura, história, geografia, geologia, política,biografia,matemática, engenharia”.Tanto Verissimo como Araripe sublinhavam a idéia de totalidade encontrada no livro, resultado da soma da arte com a ciência, do épico com o trágico e da emoção com a razão. Euclides produzira uma obra científica, uma obra histórica, mantendo “a continuidade da emoção, sempre crescente, sempre variada, que sopra rija, de princípio a fim, no transcurso de 634 páginas, um livro fascinante, resultado de um conjunto de qualidades artísticas e de preparo científico”. Eis aí uma das vertentes do aspecto ‘ fundador’ da obra, tão mencionado pelos críticos literários ao longo do tempo.
A emoção e o espanto provocados pela obra de Euclides emite seus ecos até hoje. Quase todos os críticos se entusiasmaram, mas por força de seu ofício ficaram se perguntando: por quê? “É uma obra sem carteira de identidade. A natureza de seu ser, enquanto obra literária, permanece indecifrada. É impressionante verificar como sua realidade ontológica persiste incapturável pela crítica literária”, admitiu o escritor Franklin de Oliveira, que fez a si mesmo a pergunta até hoje ‘clássica’ : afinal, o que é Os sertões? É ficção, vaticinaram entre outros Tristão de Athayde e Afrânio Coutinho, que escreveu: “Trata-se de romance-poema-epopéia. Uma epopéia épica,narrativa heróica, da família de Guerra e paz, e cujo antepassado mais ilustre é a Ilíada.” O professor Leopoldo M. Bernucci , da Universidade do Colorado em Boulder,EUA, acredita que em toda a história da literatura brasileira nenhum autor conseguiu estabelecer, até agora, uma relação tão visceral com seus leitores como Euclides. “O sentimento do leitor é de assombro e perplexidade. É detestado e adorado. Tem acertos e deslizes, mas não deixa ninguém indiferente.” Entre os supostos deslizes literários, mostrando que a posteridade não é um refúgio seguro nem para os grandes gênios, inclui-se o comentário de Joaquim Nabuco ao conferir a Euclides a responsabilidade por um certo mau estilo das gerações que o sucederam. Gerardo Mello Mourão,por sua vez, acha que o barroco euclidiano degenerou “no rococó dos deslumbrados, que produziu no Brasil uma literatura altissonante e suspeita, na qual se pode inscrever a obra do próprio Guimarães Rosa”. Independentemente da sucesso de público e de crítica, sua perpetuação, sustenta a antropóloga, pesquisadora e ensaísta Regina Abreu, está relacionada a demandas sociais. Ao ser transformada em monumento, símbolo nacional ou fenômeno cultural, uma grande obra literária extrapola suas características iniciais, passando a desempenhar funções sociais que ultrapassam seu valor essencialmente literário. “O coroamento de Os sertões teve o mesmo efeito de um tombamento__ como ocorre com um bem arquitetônico”, ela explica; “ é como “semióforos”, dotados de um valor simbólico que ultrapassa o valor de uso; considerados preciosidades, estão investidos de valor sagrado. Tornam-se um culto”.
Na consagração de Os sertões, menciona-se o aspecto “fundador” da obra. Em que consiste essa fundação ? por inovar , por renovar, por revolucionar.... por tornar-se enfim um clássico, em meio a elementos histórico-político-sociológicos e literário-culturais específicos de um período de fortes mudanças no país__ não apenas pela substituição da monarquia pela república, que seria aliás interpretado como um dos motivadores da ‘rebelião de Canudos’.
Euclides da Cunha nasceu e se criou na sociedade brasileira da segunda metade do século XIX __ uma sociedade monárquica dominada por grandes proprietários de terra e de escravos, em que vigorava o espírito da “sociedade de corte”.Na seara literária, era época da incipiência do naturalismo/realismo__ de um naturalismo com cunho cientificista __ ascendente sobre o romantismo(então representado sobretudo por Machado de Assis e José de Alencar); tempo ainda da proliferação da temática do sertão e do interior, de profusão de ‘escritores sertanejos’__ e nesse contexto, por força desse vetor, Os sertões encontrou ‘campo fértil’ de aceitação e, face à sua qualidade excepcional, de celebração definitiva.
Sobre o episódio de Canudos outros autores escreveram, à época : Afonso Arinos, que já era conhecido por focalizar o tema dos sertões e contar histórias de sertanejos, com Os jagunços _ novela sertaneja ; Manoel Benício, com O rei dos jagunços; até Artur Azevedo criou uma peça, “O jagunço” , encenada no Rio de Janeiro em 1897 ; e Machado de Assis (ele mesmo), escreveu oito artigos entre 1894 e 1897(22/7/94;13/9/96;06/12/96;27/12/96;31/01.97;07/02/97;14/02/97;11/11/97) em sua coluna “A Semana”, publicada no jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro .
Mas Euclides, diferentemente da maior parte desses autores que escreveram sobre Canudos, preferiu não editar suas anotações escritas no ‘calor da hora’ dos acontecimentos, registradas no Diário de campanha e nos esboços do livro que a princípio intitulara “Batalhas dos soldados de São Paulo”, para amadurecê-las à base de seu arraigado cientificismo e à luz de novas leituras de trabalhos científicos: o recolhimento em São José do Rio Preto deu-lhe as condições necessárias a esse amadurecimento. Assim, “antecipou um comportamento que seria tônica entre os cientistas sociais, inaugurando de certa forma o ‘trabalho de campo’ seguido da postura de distanciamento e de reflexão teórica sobre o material recolhido”, segundo o crítico e ensaísta José Guilherme Merquior.
Por outro viés, o momento de consagração de Os sertões, no início do século XX, pode ser considerado o coroamento de uma invenção que já vinha se processando há anos, ‘a invenção do sertão’. O sucesso da obra de Euclides veio afirmar __ e por ela foi ativada__ a positivação da temática sertaneja , do interior, entranhada na cultura literária brasileira. Os sertões, de resto, se inserem numa tradição literária privilegiante do rural e incentivou,insuflou e consolidou uma vertente que iria gerar o ciclo do romance regionalista da década de 1930.
A literatura sertaneja constituida na virada do século já era tradição consolidada. O sertão era considerado o lugar da pureza e da autenticidade, o“lugar da nacionalidade autêntica”. Antonio Candido, por exemplo, sentenciara que “o cânone da literatura brasileira é rural, e não urbano” e já sinalizara nessa direção ao constatar que “desde o início de nosso romance ,[o regionalismo] constitui uma das vias de autodefinição da consciência local, com José de Alencar, Bernardo Guimarães, Franklin Távora, Taunay” . O ‘conto sertanejo’ tratava o homem rural do ângulo pitoresco, sentimental e jocoso : “era a banalidade dessorada de Catulo da Paixão Cearense, a ingenuidade de Cornelio Pires, o pretencioso exotismo de Waldomiro Silveira ou de Coelho Neto de Sertão, é toda a aluvião sertaneja que desabou sobre o país entre 1900 e 1930”, observava Candido, enfatizando que “a publicação de Os sertões contribuiu certamente para esse movimento de valorização do interior”.
Só que subvertendo toda uma visão “pitoresca, sentimental e jocosa’” do homem rural, rejeitando toda ‘banalidade, pretencioso exotismo, ingenuidade’__ e mostrando o sertanejo como “antes de tudo um forte... a rocha viva de nossa nacionalidade”.(vale notar que essa visão ‘dicotômica’ do sertanejo, ora como um ingênuo, frágil ora como um forte , veio na década de 1910 a permear a interpretação de Monteiro Lobato com relação ao Jeca Tatu, desenhado sob três perfis distintos ao longo de sua ‘trajetória literária’)
Euclides também se distinguiu dos demais escritores da ‘voga sertaneja’ por vir apoiado em discurso científico, novidade na época, que deu ao livro ‘autoridade’ superior (ao mesmo tempo ‘legitimadora’ das demais obras sertanejas) e forneceu condições para que idéias e conceitos emitidos apenas como impressão ou opinião ganhassem estatuto de fatos ‘cientificamente’. O sertão tornou-se via privilegiada para uma leitura do Brasil tanto do ponto de vista literário e artístico quanto da tradição de estudos de etmografia e folclore : na esteira dessa via vieram Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa , até mesmo Glauber Rocha no cinema e Mestre Vitalino na arte popular artesanal.
A grande novidade foi justamente “o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira”, o que coloca Euclides no lugar de “pai fundador da sociologia no Brasil”, pois segundo Antonio Candido “toda a onda [da voga sertaneja] vem quebrar em Os sertões, típico exemplo de fusão, livro posto entre a literatura e a sociologia naturalista, que assinala um fim e um começo: o fim do imperialismo literário, o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira, no caso as contradições contidas na diferença de cultura entre as regiões litorâneas e o interior”.
Escrito por maurorosso às 22h45
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Niemeyer 100 anos : salve !
A par do famoso\’clássico’ “Poema da curva”, vale lembrar outra ordem de escritos do arquiteto-mór, exatamente os primeiros textos em prosa que escreveu publicados na revista Módulo, por ele fundada e mantida de 1955 a 1964(ano fechamento da revista pelo regime militar em 1964) – agora em vias de ser reeditada , “o primeiro número já pronto” como afiançou em recente entrevista ao canal de tv Record News. Estes textos foram agrupados no livro Como se faz Arquitetura,editora Vozes, Petrópolis,1986.São textos importantes,coligidos e comentados por Danilo Mattoso, da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, para caracterizar ,primeiro, uma postura teórica consolidada de Niemeyer acerca da arquitetura, depois para expor uma evolução de seu pensamento com relação à própria arquitetura que criava e fazia.è um conjunto coeso e consistente de temas abordando os problemas da arquitetura de modo abrangente : seus textos são marcados por este caráter reflexivo ativo, circulando entre a palavra e o objeto arquitetônico.Antes,porém, Niemeyer já expusera claramente o sentido social que a arquitetura deve ter no texto ”Ce qui manque a notre architecture”,escrito para Ouvre Complète (1938-1946),L. Corbusier , Les Editions d´Architecture, Zurique ,1946 , em que sentenciara :“Os arquitetos devem ser os elementos ativos no momento que atravessamos, familiarizando-se com os problemas de nossa época e, principalmente unindo-se de modo decisivo àqueles que, trabalhando sinceramente para o progresso de noso país, nos propõem um programa justo e verdadeiramente baseado nas reivindicações mais essenciais de nosso povo, capaz de garantir à nossa profissão seu caráter humanitário indispensável” .Em 1955, os textos publicados na Módulo têm sua razão na necessidade de resposta a críticas externas referentes à arquitetura brasileira , emitidas em 1953 pelo artista plástico e crítico de arte suíço Max Bill em estada no Brasil para expor em São Paulo, críticas depois condensadas num conjunto de pareceres intitulado “Report on Brazil”, publicado em outubro de 1954 pela revista americana Architectural Review , tendo, entre outros, como autores o próprio Max Bill, Walter Gropius, Ernesto Rogers -- o que produziu forte e crucial influência em Niemeyer, a ponto de simplesmente gerar “uma reelaboração do modo de trabalhar e pensar a arquitetura” e por extensão um dos principais fatores de modificação da arquitetura de Niemeyer.A resposta de Niemeyer veio em seu primeiro texto na Módulo:“Sobre estas críticas, meu amigo, nada tenho a dizer; nem me interessa mesmo contestá-las. Somos um povo jovem, com uma tradição de cultura ainda em formação – o que nos expõe naturalmente mais à crítica daqueles que se julgam representantes de uma civilização superior. Mas, também, somos simples e confiantes em nossa obra. O suficiente, pelo menos, para apreciar esta crítica, ainda quando parta de homens que não possuem, profissionalmente, as credenciais necessárias. É claro que a autoridade de Gropius é diferente, embora cumpra ressalvar a pouca afinidade que temos com sua técnica e fria sensibilidade. Consideramos a arquitetura obra de arte e que, como tal, só subsiste quando se revela espontânea e criadora. Trabalhamos com o concreto armado, material dócil e generoso a todas as fantasias. Tirar dele beleza e poesia, especular sobre suas imensas possibilidades é o que nos seduz e apaixona, profissionalmente. E por estas razões é que tanto nos identificamos com a obra de Le Corbusier. Obra de harmonia, onde as características de criação e beleza são as constantes fundamentais.E foi justamente dentro desse espírito de libertação e criação artística que a nossa arquitetura conseguiu em quinze anos (1938-1953) o prestígio mundial de que inegavelmente hoje disputa”[ p46-47].O segundo texto de Niemeyer, de 1956, intitulado “Problemas atuais da Arquitetura Brasileira”, aponta para uma “estranha insatisfação apossou-se ultimamente de alguns dos nossos arquitetos”, “um primeiro grupo constituído por aqueles que, impressionados com as teorias tradicionalistas, almejam uma ‘arquitetura baseada na tradição e cultura de nosso povo’; e o segundo, pelos que se mostram alarmados com o baixo nível de nossas construções modernas, e reclamam soluções mais simples e racionais. A ambos respeitamos (...) . Deixando aqui este conflito de opiniões, segui para a Europa, onde mantive, durante todo o tempo de minha viagem, a preocupação de tomar contato com colegas estrangeiros, para com eles debater os problemas profissionais que nos são comuns.(...) Não desejando dar ao assunto uma importância descabida, quero me limitar a aproveitá-lo naquilo que ele apresenta de honesto e positivo.A nossa arquitetura moderna tem certamente na falta de conteúdo humano a principal razão das suas deficiências, refletindo – como não poderia deixar de fazê-lo – o regime de contradições sociais em que vivemos e no qual ela se desenvolveu.Dirigida a classes dominantes pouco interessadas em economia arquitetural – pois o que desejam realmente é ostentar riqueza e luxo. (...)“É verdade, e isso começa a inquietar, que a grande maioria das nossas construções apresenta um baixo nível arquitetônico, atingindo mesmo aspectos grotescos, e até ridículos, pelo emprego inadequado de certos materiais e pelo abuso de formas, muitas vezes extravagantes e impróprias. Este fato, apesar de grave, é fácil de ser explicado; realmente, o sucesso da arquitetura moderna no Brasil foi de tal ordem, que em pouco tempo tornou-se ela a nossa arquitetura corrente e popular.Tudo isso, porém é uma espécie de ‘moléstia de crescimento’, que devemos olhar sem surpresa, compreensivamente, procurando por meio de uma pertinaz campanha didática combater e eliminar”[pp.39-45].A partir da reflexão acerca de seus trabalhos e da arquitetura brasileira como um todo, Niemeyer parece tomar consciência de sua real importância no panorama nacional ; a partir disso, tenta fazer com que sua obra seja modelar, livre das moléstias de crescimento que assolavam a arquitetura nacional -- intenção que torna clara ao apresentar seu projeto para o Museu de Caracas:“(...) expor com franqueza e simplicidade as razões de ordem técnica e artística que orientam nossos trabalhos. Esta atitude, a meu ver, deveria ser adotada como norma habitual. Realmente, se o arquiteto, na hora de estudar os seus planos de arquitetura, levasse em conta essa necessidade, suas soluções seriam naturalmente mais apuradas, justas e realistas. A preocupação de tudo ter que explicar posteriormente, constituiria uma espécie de controle à sua imaginação e à sua fantasia, disciplinando as idéias surgidas dentro das condições objetivas de cada problema. Com isso, não se limitaria nem o ímpeto nem a força criadora, indispensáveis às verdadeiras obras de arte – garantir-se-ia, ao contrário, maior unidade, maior equilíbrio e maior realismo ao trabalho. (...) É possível estabelecerem-se certas normas capazes de ordenar o planejamento dentro de uma linha racional, lógica e equilibrada. Para isso, seria necessário a adoção de alguns princípios básicos: que a solução seja resultante das condições específicas de cada problema, das condições locais, topográficas e climatéricas, das condições funcionais e programáticas, da técnica e dos materiais em uso. Dentro deste critério, a arquitetura seria forçosamente de melhor nível técnico e, quando possível, se servida de força criadora, uma obra de arte. (...) Esta a razão do apelo que faço a vocês, estudantes de arquitetura, no sentido de se familiarizarem com as novas possibilidades técnicas e suas tendências atuais, de modo a encontrar amanhã, na elaboração de seus planos, não a solução publicada na última revista de arquitetura, mas aquela capaz de garantir ao seu trabalho um conteúdo novo, próprio e definido. O projeto que hoje apresento foi estudado dentro deste espírito.”[ “Museu de Arte Moderna de Caracas”, in Módulo, pp.39-45, 1956].
Voltaria ao teor reflexivo em 1958, com um depoimento significativo – um verdadeiro ‘divisor de águas’conceitual de sua arquitetura :“As obras de Brasília marcam, juntamente com o projeto para o Museu de Caracas, uma nova etapa no meu trabalho profissional. Etapa que se caracteriza por uma procura constante de concisão e pureza, e de maior atenção para com os problemas fundamentais da arquitetura.Essa etapa, que representa uma mudança no meu modo de projetar e, principalmente, desenvolver os projetos, não surgiu sem meditação. Não surgiu como fórmula diferente, solicitada por novos problemas. Decorreu de um processo honesto e frio de revisão de meu trabalho de arquiteto.Realmente, depois que voltei da Europa, após haver – atento aos assuntos do ofício – viajado de Lisboa a Moscou, muito mudou minha atitude profissional.”[“Considerações sobre a Arquitetura Brasileira”, in Módulo, p.8, 1956].
Interagindo definitivamente os argumentos dos críticos estrangeiros à sua mudança de atitude, a autocrítica explícita no texto expressa-se essencialmente em itens como : “(...)conteúdo social – “Sem uma justa distribuição da riqueza o objetivo básico da arquitetura, ou seja, seu lastro social, estaria sacrificado” ; impotência da arquitetura diante deste quadro – “Encarava a arquitetura como complemento de coisas mais importantes, e mais diretamente ligadas à vida e à felicidade dos homens” ;negligência pessoal – “aceitava trabalhos em demasia, executando-os as pressas, confiante na habilidade e na capacidade de improvisação de que me julgava possuidor” ; descuido com certos projetos – adotando “uma tendência excessiva para a originalidade, no que era incentivado pelos próprios interessados”.E concluindo: “Isso prejudicou em alguns casos a simplicidade das construções e o sentido de lógica e economia que muitas reclamavam.(...)Não pretendo, naturalmente, com estes comentários iniciar um processo de autodestruição, nem atribuir aos meus trabalhos feição depreciativa. Vejo-os, pelo contrário, como fatores positivos dentro do movimento arquitetural brasileiro, ao qual deram, na ocasião oportuna, por seu elan e sentido criador, uma contribuição efetiva que até hoje caracteriza esse movimento” [“Depoimento”, in Módulo, p.3, 1958].No artigo, um Niemeyer melancólico se fazia presente – aliás, no estilo Schopenhauer, de quem declarou por diversas vezes ser um cultor e cujo pessimismo filosófico herdara(sic): “Sinto com isso um vago desânimo, desânimo que me leva a considerar ingênuos os que se entregavam à arquitetura de corpo e alma, como se construíssem obras capazes de perdurar. Embora nunca me tivesse desinteressado da profissão, encarava a arquitetura como complemento de coisas mais importantes, e mais diretamente ligadas à vida e à felicidade dos homens. Ou ainda, como costumava dizer, como um exercício que se deve praticar com espírito esportivo – e nada mais ”. Porém, se a mudança de atitude indicava,por um lado,a esperança numa arquitetura mais justa para com a sociedade desigual em que vivemos, por outro sobreveio uma desilusão completa após o seu exílio voluntário no exterior em 1967—que o fechamento da Módulo em 1964 o conduzira [“(...) paralizado pela reação, eu segui para o velho mundo com minhas desilusões e minha arquitetura(...)”--in Módulo Especial, p.35, 1985]. Um texto de 1979 é típico dessa desilusão: “Apenas no seu aspecto social a arquitetura me deprime. Sentindo como é discriminatória nesse mundo injusto em que vivemos. Não se trata de um problema de arquitetura, nem mesmo da forma arquitetural. Trata-se de um problema social no qual a arquitetura não pode intervir, pois dele é simples resultante. É claro que só a mudança da sociedade lhe garantirá o conteúdo humano desejado e que não é na prancheta, mas na luta política que o arquiteto poderá atuar e contribuir.”[“Metamorfose”, in Pampulha,p.10, nov-dez, 1979].A consciência quanto ao cenário mundial em que se situava sua arquitetura naquele momento era bastante clara:“Vai longe o tempo em que a arquitetura se apresentava como um problema unicamente ligado à função. A ‘máquina de habitar’ de Le Corbusier representa um período de combate, um período de transição forçada, no qual uma atitude ortodoxa, contra a incompreensão da época, se tornava indispensável. Hoje, vencida esta etapa, voltou a arquitetura à sua condição natural e eterna de elemento criador de vida, beleza emoção. De fato, não basta à arquitetura se apresentar como solução prefeita de problemas técnicos e funcionais. Uma simples visita ao passado mostra-nos que as obras que ficaram e que a todos surpreendem e emocionam são obras da sensibilidade e poesia. E, na verdade, diante desses monumentos de graça e beleza, passam a plano secundário, para as épocas futuras, características funcionais e utilitárias. (...) Evidentemente, com isso, não pretendemos assumir uma atitude idealista – de arte pela arte -, cujo conteúdo reacionário sabemos recusar, mas reconhecer que diante dessas obras imortais e consagradas o que atua em nossos sentidos é precisamente a beleza, o inesperado e a harmonia da solução plástica.”

Escrito por maurorosso às 19h24
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sobre a inflexão machadiana
apenas como um adendo . tratarei do tema com mais extensão e profundidade brevemente.
as drásticas mudanças temática, estilística e de linguagem realizadas por Machado no final da década de 1870/início da década de 1880 -- concretizando o grande salto literário de sua obra e criando uma linguagem ficcional e não-ficcional diferenciada, mescla do humor e da seriedade, da galhofa e da crítica social e política, do riso e do tédio -- teve como instrumento e ferramental a forma shandiana e o shandismo [cf. Wbster's International Dictionary , "shandean", "aquele que tem o espírito de Tristan Shandy"; "shandysm", "a filosofia de Tristan Shandy"- em referência à obra A vida e as opiniões de Tristam Shandy, um cavalheiro, de Laurence Sterne] , para se utilizar da expressão magistralmente criada por Sergio Paulo Rouanet, inerente tanto ao romance e a contos como a crônicas. A expressão, hoje comum e consensual no meio da machadologia (e da machadofilia), define uma forma literária, que vindo de Sterne, de Xavier de Maistre, Almeida Garret e Denis Diderot,adquire em Machado sua substância mais consistente,simbiótica e conclusiva, inclusive dando a essa forma literária seus contornos e conteúdo definitivos. À forma shandiana estão associadas – não de modo genérico e onipresente , porquanto válido em algumas obras e autores, em outros não – a sátira menipéia e a tradição luciânica, originadas de uma tradição grega, dos diálogos socráticos, que mesclam temas especificamente filosóficos com assuntos de retórica e dialética, eivados de hilaridade, comicidade e ironia: na duplicidade sério-cômico,abriga o popular, o erudito, o burlesco, tornando-se p. ex. um dos elementos basilares da carnavalização conceituada por Mikhail Bakhtin . Na obra machadiana a partir da década de 1880 denota-se a presença marcante de manifestações da sátira menipéia, como a paródia, o subterfúgio ,a profanação, o disfarce e, em especial, a ‘desconstrução’ de formas literárias .
Escrito por maurorosso às 20h15
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explicação reticente
parece-me já bastante delineados o 'espírito' e as proposições deste blog -- um espaço paraa literatura brasileira. procuro POR ORA, como se deve ter notado, alternar textos mais densos (p. ex. , da série inicial "Os primeiros Machado") com coisas mais, digamos, 'leves' (mas literários, ou pertinentes à literatura : inseri uma receita de Natal, mas oriunda de um romance de Camilo Castelo Branco; abri um hiato para reverenciar Lima Barreto -- e falar da República e literatos ; atenção ! amanhã vou imiscuir Euclides da Cunha e Os sertões-- para não se encerrar dezembro sem registrar os 105 anos de publicação do primeiro bestseller da literatura brasileira).
com o tempo tudo será sedimentado.
Escrito por maurorosso às 18h26
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esta imagem de Machado de Assis é rara -- ele aos 35 anos. corria o ano de 1874,então, quando Machado publicou em O Globo , jornal de Quintino Bocaiúva, em folhetins o romance “A mão e a luva”, editado em livro pela Livraria B.L.Garnier Editor no mesmo ano. por essa época, já iniciara um processo de mutação -- pode-se dizer, transição -- formal,estilistica ,temática e sobretudo de 'approach',digamos,ideológico (ideológico dentro da literatura, esclareça-se) que culminaria na célebre inflexão concretizada no final dessa década\início de 1880. também em 1874 , o funcionário público Machado de Assis deixou o cargo que ocupava no Diário Oficial e tomou posse do novo emprego no Minístério da Agricultura,Viação e Obras Públicas,no qual faria longa (e segura) carreira burocrática [há de se considerar que a estabilidade profissional,no serviço público, constituiu um dos fatores capitais para a evolução literária de Machado e o processo de inflexão em sua vida literária ].
Escrito por maurorosso às 18h05
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Um hiato em Machado : reverenciemos Lima-IV
Dono de obra ficcional e não-ficcional com vigoroso fulcro ideológico, Lima Barreto buscava na politização da literatura um sentido sobretudo ético.Na única conferência literária que faria, mas não o fez — “O destino da Literatura”, em Rio Preto, São Paulo, em fevereiro de 1921 — foi explícito :“A Beleza não está na forma, no encanto plástico, na proporção e harmonia das partes, como querem os helenizantes de última hora . A importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfeição de forma, de estilo, deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano(...) E o destino da literatura é tornar sensível, assimilável, vulgar esse grande ideal de fraternidade e de justiça entre os homens para que ela cumpra ainda uma vez sua missão quase divina. Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa espécie, a Arte, especialmente a Literatura, a que me dediquei e com quem me casei; mais do que ela, nenhum outro qualquer meio de comunicação entre os homens, em virtude mesmo do seu poder de contágio, teve, tem e terá um grande destino em nossa triste humanidade.”
Marginalizado por suas origens e condição social, execrado por ser ‘passadista e contrário à modernização’, Lima Barreto enfrentou as marcas de seu tempo e da sociedade brasileira que lhe foi contemporânea. Seu projeto era um projeto para uma vida inteira de militância literária contra o preconceito, mas também “contra os falsos intelectuais, contra um academismo espelhado no modelo europeu, contra uma literatura só de deleite, como ornamento”. Para ele, a literatura era uma verdadeira missão. A pretensa beleza estilística, os atributos externos formais de perfeição, de forma, de estilo, de vocabulário, não poderiam prescindir da “exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano, que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca, e aluda às questões de nossa conduta na vida”
Esse ideal, entendia ser impossível cumprir sob a égide acadêmica , como expõe taxativamente naquela entrevista à A Época, em fevereiro de 1916 : “Vim para a literatura com todo o interesse e com toda coragem... Não quero ser deputado, não quero ser senador, não quero ser mais nada senão literato. Não peço às letras conquistas fáceis, não lhes peço glorías, peço-lhes coisa sólida e duradoura... Eu abandonei tudo por elas; e a minha esperança é que elas vão me dar muita coisa...”
Tanto nos romances e contos como nas crônicas e artigos, Lima Barreto exerceu sempre uma crítica à cultura da modernidade contra a opressão social e a hipocrisia política — tal como se revelaram na implementação da República . A opção por uma literatura militante determinou o caráter marginal (e ‘revolucionário’, para muitos estudiosos) de sua obra: sua visão crítica da sociedade, da política e da cultura, renderam-lhe frutos amargos — desprezo do público, penúria econômica, alcoolismo e doença, internação em manicômio — mas nada o fez submeter-se aos ditames da moda e dos valores culturais da República. A “esperança” mencionada por ele na entrevista de 1916 alimentava-se na verdade da recusa impassível em transigir com o que demandava popularidade — o aburguesamento do escritor, por via da adesão aos temas da moda, que fortaleciam os interesses políticos, econômicos, sociais e culturais da República. Nada porém o fez submeter-se a esses valores.
Escrito por maurorosso às 12h11
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No lado oposto, além da ferrenha oposição à escrita aristocrática predominante , destoando e substancialmente contrário aos estilos vigentes, estava Lima Barreto – por essa época já respeitado como articulista e cronista e reconhecido como excepcional escritor mercê dos elogiados romances publicados Recordações do escrivão Isaias Caminha(1909) e Triste fim de Policarpo Quaresma (1915)—que rejeitava terminantemente fazer de tanto de seu trabalho jornalístico como de sua obra literária, fosse ficcional ou não-ficcional, “instrumento de propaganda do sonho republicano de falso progresso e falsa civilização”. Sustentava ele que fazia “uma literatura militante, de obras que se ocupam com o debate das questões da época (...), por oposição às letras que, limitando-se às preocupações da forma, dos casos sentimentais e amorosos e da idealização da natureza”
Lima Barreto impôs — com sua escrita simples, direta e objetiva , que feria o convencionalismo literário da época, impregnado de falsas concepções estéticas, floreios , etc — os prenúncios do Modernismo logo depois rompante na cultura brasileira [curioso notar que Lima Barreto morreu no mesmo ano de 1922, nove meses depois do fevereiro em que eclodiu o movimento,em São Paulo], cujos primeiros elementos e formas apareceram justamente pela linguagem típica da escrita barretiana. Não à toa despertou interesse e respeito por parte de Mario de Andrade, do alto de sua ‘autoridade’ de contista e teórico da construção ficcional, e levou p.ex. Sergio Milliet a escrever “(...) Lembro-me da grande admiração que tinha por Lima Barreto o grupo paulista de 22. Alguns entre nós, como Alcântara Machado, andavam obcecados .O que mais nos espantava então era o estilo direto, a precisão descritiva da frase, a atitude antiliterária, a limpeza de sua prosa, objetivos que os modernistas também visavam. Mas admirávamos por outro lado sua irreverência fria, a quase crueldade científica com que analisava uma personagem, a ironia mordaz, a agudeza que revelava na marcação dos caracteres” : nas páginas da então incipiente revista Klaxon (1921), os modernistas paulistas se propunham também a ‘descoelhonetizar’ [ref. a Coelho Neto,então epígono da escrita rebuscada e cheia de floreios retóricos] a literatura brasileira, rompendo com os cânones acadêmicos., objetivos bastante semelhantes da revista Floreal, que Lima criara em 1907 e só durou quatro números.
Assim, na contrapartida ao aristocratismo da escrita de então, aos nefelibatas da linguagem, tinha-se em Lima Barreto um registro da língua ‘brasileira’ do início do século XX e um ritmo genuinamente nacional que prenunciava a linguagem modernista. Segundo o historiador e ensaísta Nicolau Sevcenko , “chama muito à atenção quando se lê a obra do Lima Barreto, a atualidade dessa obra não só em termos de linguagem — uma linguagem bastante acessível, bastante próxima até da oralidade — pela qual foi muito criticado pelos seus pares e intelectuais da época. Mas não só por essa linguagem mas também pelos temas de que ele trata e pelo modo como os trata Pode-se ir além porque muitos problemas de Brasil que ele pensa naquela época, que ele critica, e que ele, enfim, desenvolve como reflexão, permanecem absolutamente atuais” .
Contrariamente à maioria de seus contemporâneos, praticantes da escrita floreada e vazia, aristocrática e fútil, verdadeiros instrumentos literários do “sorriso da sociedade” apregoado por Afrânio Peixoto, Lima Barreto conferia à sua obra ficcional o sentido militante de uma “missão social, de contribuir para a felicidade de um povo, de uma nação, da humanidade”. Em sua concepção, a literatura tinha de ser “militante”, com objetivo concreto e definido, como sentencia em entrevista a A Época,18.02.1916 : “(...)não desejamos mais uma literatura contemplativa, cheia de ênfase e arrebiques ,falsa e sem finalidade, o que raramente ela foi; não é mais uma literatura plástica que queremos, a encontrar beleza em deuses para sempre mortos, manequins atualmente, pois a alma que os animava já se evolou com a morte dos que os adoravam; digamos não a uma literatura puramente contemplativa, estilizante sem cogitações outras que não as da arte poética, consagrada no círculo dos grandes burgueses embotados pelo dinheiro, de amplo emprego por pretensos intelectuais,bacharéis e políticos” (...) “a obra de arte tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem. Este é meu escopo. Vim para a literatura com todo o desinteresse e toda coragem. As letras são o fim da minha vida. Eu não peço delas senão aquilo que elas me podem dar: glória!”
(continua)
Escrito por maurorosso às 12h10
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Um hiato em Machado : reverenciemos Lima-II
Mas paradoxalmente foi o processo de arrivismo bursátil e de especulação mercantil -- gerando incremento de vultosos recursos , provocando a modernização da cidade, urdindo o que se denominou Regeneração, construindo a imagem de “uma sociedade ilustre e elevada” -- que propiciou aos intelectuais malogrados uma espécie de atavio : passaram a ser vistos pela sociedade como ‘símbolos de ilustração’, ‘expoentes da cultura’, propiciando, entre outros aspectos, o desenvolvimento do ‘novo jornalismo’, ao qual os literatos se entregaram de corpo e alma . A adesão maciça dos escritores ao jornalismo, exercendo inevitavelmente efeitos negativos sobre a criação artística—falou-se em “vazio de idéias”—obrigou-os a uma redefinição de suas posições intelectuais e uma clivagem em seu universo social. Deflagrava-se com todas as letras e tintas a belle époque cultural, com o conseqüente processo de banalização e neutralização da força cultural da literatura, o intelectual descaracterizado e ‘dissolvido’ em meio à sociedade, às facilidades da nova vida social tendentes a extinguir o engajamento dos intelectuais que haviam feito a República. O novo espírito “agitado e trêfego” que tomou conta da cidade produziu “o recolhimento dos autores em estéticas e poéticas evasivas”, no entender de José Veríssimo, os intelectuais irreversivelmente assimilados pela nova sociedade construída pela República abrindo espaços para a mercantilização e banalização da própria literatura – vista agora como “o sorriso da sociedade” de que falava Afrânio Peixoto : “(...)A literatura é o sorriso da sociedade. Quando ela é feliz, a sociedade, o espírito se lhe compraz nas artes e, na arte literária, com ficção e com poesias, as mais graciosas expressões da imaginação.”
Entrou-se de cheio no espírito mundano da belle époque, atingindo seu auge na primeira década do século, cuja literatura típica, porém, era estéril em termos nacionais, ainda que seu modelo cosmopolita europeu se coadunasse com a própria fachada da época: era uma literatura articulada com o modo de vida das elites urbanas europeizadas, fomentador do consumo, do excesso,da sensualidade,do aristocratismo; de extrema superficialidade e caráter preciosístico , uma coligação de alta sociedade e alta cultura.(nesse aspecto,Lima Barreto tinha a chave para entender e interpretar o Rio de 1900 : o bovarismo , que apontava para as fantasias centrais que compunham o significado dessa época).
O certo é que a decepção com a República e o ‘espírito’ inerente ao novo século, “o século da modernização e do progresso”, trouxeram novas formas e modos de o escritor se relacionar com a literatura, sob um processo algo ‘compulsório’ de aburguesamento e ‘mundanismo’, acarretando, por uma razão ou outra, a necessidade de adesão quase maciça dos literatos ao jornalismo — que se constituiu no fenômeno cultural mais marcante dos primeiros tempos do século XX. O significativo desenvolvimento dos meios técnicos da imprensa, iniciado na verdade em meados do século XIX, permitiu o crescimento e melhoria qualitativa dos jornais e o nascimento de muitas revistas ilustradas, ambos incluindo matérias literárias.
Por essa época, tanto os jornais como as revistas buscaram mais intensa e concretamente atingir a classe média urbana que então ia se formando e consolidando com o advento da República. Jornais e revistas, além do compromisso de informar e divertir, estavam engajadas num movimento de ‘democratização’ cultural: periódicos como Gazeta de Notícias, Diário do Rio de Janeiro,O Paiz, Diário Mercantil ,Correio da Manhã, Jornal do Commercio,Jornal do Brasil, Rio-Jornal, A.B.C. e as revistas O Malho , Revista da Semana, Kosmos, A Renascença , FonFon! ,Revista Contemporânea (essas duas caracterizadas como “simbolistas”), Careta , Ilustração Brasileira, A Cigarra, Revista do Brasil, Dom Quixote, Paratodos, O Cruzeiro, incluíam muita matéria cultural, como reportagens sobre exposições de artes plásticas, crítica literária, música, contos, crônicas, poesia, teatro e cinema . Quase todas as revistas não conseguiram sobreviver por muito tempo e ter vida longa — exceção apenas a FonFon! e a Careta, que chegaram, não ininterruptamente, até à década de 1950.A maioria dos jornais e revistas (tanto do Rio de Janeiro quanto de São Paulo) acolhia , e pagava , colaboração literária o que propiciou a escritores e literatos terem publicados seus trabalhos e ter uma fonte de recursos — para muitos, a única — e um chamado “second métier” condigno . Vale registrar que a imprensa propiciou a mudança para a metrópole de muitos intelectuais que não logravam realizar-se literariamente em suas cidades e regiões de origem.
A rigor, quer no âmbito do jornalismo quer mormente da literatura, os escritores, sob pena de caírem em ostracismo cultural e profissional e financeiro tiveram de em maior ou menor grau se submeter à preferência ou gosto dos leitores da época : a necessidade de se expressaram no mesmo diapasão da cidade contagiada pelos anseios de modernização e marcada pela ânsia do enriquecimento rápido fizeram-no adotar estilo, linguagem , forma e conteúdo mais superficiais e mesmo descartáveis, “adequados ao gosto do consumidor pequeno-burguês formado pela República”.
(continua)
A. Peixoto,Panorama da literatura brasileira ; Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1940].
Escrito por maurorosso às 12h08
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Um hiato em Machado : reverenciemos Lima
Abro um parêntese nos “primeiros Machado” : antes que se encerre este 2007 , e antes que se inicie efetivamente “o ano Machado de Assis”(2008), há de se referenciar e reverenciar Lima Barreto -- mas convém dizer que no mesmo caso de Machado, seu nome,sua obra e sua grandiosidade literária postam-se acima e além de efemérides e circunstâncias de momento. Por que digo isso ? porque 2007 marca os 85 anos da morte do criador de Policarpo Quaresma, ocorrida a 1 novembro 1922 [ironia suprema : o escritor que reformulou a linguagem literária, que inspirou o discurso estético, quanto à escrita e à linguagem, dos modernistas, morreu exatamente no ano da eclosão do movimento]. Mês de novembro, lembre-se, que também assistira, no dia 15 de 1889, a instalação da República, fato de fundamental importância política, institucional e social na história brasileira : dois acontecimentos – o novo regime e a morte do escritor -- extremamente significativos, separados por 33 anos, mas irremediavelmente entrelaçados e integrados,inclusive porque Lima Barreto, ao contrário dos intelectuais da época, foi o mais veemente e intransigente crítico do novo regime e da pretensa ‘modernização’ anunciada. Cento e dezoito anos de república e 85 anos sem Lima Barreto depois, ambos os eventos propiciam estimulantes reflexões , não apenas sobre a política e a literatura brasileiras mas em especial sobre a própria institucionalidade do País.
A República, os intelectuais, o jornalismo e a literatura militante de Lima Barreto
Embora não tenha produzido correntes ideológicas próprias ou novas concepções estéticas, a geração de intelectuais solidamente arraigada nas teorias cientificistas de 1870 e no espírito progressista da época parecia estar com a República, apoiada pela maçonaria, pelo positivismo e pelas correntes que se julgavam “desassombradas de preconceitos”: as idéias circulavam então mais livremente, num ambiente que Evaristo de Moraes qualificou de “porre ideológico”, um verdadeiro mosaico no qual era predominante o liberalismo - manifestando-se especialmente entre os republicanos ‘históricos’ como Benjamin Constant, José do Patrocínio, Silva Jardim, Lopes Trovão, Alberto Sales, Joaquim Serra – mas que abrigava alguma voga de anarquismo em Elisio de Carvalho (até escrever o Five o’clock), Curvelo de Mendonça,Fabio Luz, Afonso Schmidt, simpatias explícitas ao socialismo em Martins Fontes, Olavo Bilac, e até anti-racismo declarado em Alberto Torres e Manuel Bonfim.
Sob os princípios genéricos do liberalismo, o grupo intelectual definira a tarefa que lhes cabia: contribuir e propugnar por uma ampla, profunda ação conjunta para construir a nação —no campo da produção intelectual intensificaram estudos da realidade brasileira (as obras de Euclides da Cunha, Alberto Torres, Manuel Bonfim,Oliveira Vianna são documentos exemplares) e se empenharam no ‘criar um saber próprio sobre o Brasil’( enfatizava José Veríssimo em “Um estudioso pernambucano”, artigo na revista Kosmos,n.1,Rio de Janeiro,1907) — e remodelar e fortalecer o Estado (o que obviamente punha em confrontação a ambigüidade de sua ideologia baseada no liberalismo....).
Já no dia 15 de novembro de 1889 os intelectuais registraram sua total adesão : numeroso grupo de republicanos,junto com gente da rua, tendo à frente José do Patrocínio,Aníbal Falcão, João Clapp,Campos da Paz, Olavo Bilac, Luis Murat e Pardal Mallet -- estes três pela primeira vez movidos à ação política concreta-- dirigiu-se à sede da Câmara, aos gritos de viva à República, e redigiram moção de apoio aos chefes da insurreição militar nestes termos :
“Os abaixo-assinados ,órgãos espontâneos do povo do Rio de Janeiro, representam o governo provisório,instituído após gloriosa revolução que ipso facto extinguiu a monarquia no Brasil,a necessidade urgente da proclamação da República.
Excelentíssimos srs. representantes supremos das classes militares do Brasil, marechal Deodoro da Fonseca,chefe de divisão Wandenkolk e tenente-coronel dr. Benjamin Constant.
O povo do Rio de Janeiro, reunido em massa no edifício da Câmara Municipal, tem a honra de comunicar-vos que, por meio de diversos órgãos espontaneamente surgidos e pelo seu representante legal, proclamou como nova forma de governo nacional a República.
Esperam os abaixo assinados , representantes do povo do Rio de Janeiro, que o patriótico governo provisório sancione o ato pelo qual,instituindo a República, se pretende satisfazer a íntima aspiração do povo brasileiro. Viva a República Brasileira ! Vivam o Exército e a Armada nacionais ! Viva o povo do Brasil !”
O entusiasmo adesista dos intelectuais era generalizado; em outro manifesto, dirigido ao Governo Provisório instalado a 16 de novembro, assinado por alguns homens de letras em 22 de novembro : “O povo, e quando dizemos povo referimo-nos àquela grande parte da nação que os aristocratas de todos os tempos chamaram desdenhosamente o terceiro e quarto estado, donde, reparai bem, em sua maioria saiu sempre o nosso glorioso Exército; os homens de letras, e quando dizemos os homens de letras referimo-nos a todos aqueles que tomando a si os encargos intelectuais da pátria foram, no curso de quatro séculos, os fatores mais enérgicos e mais desinteressados de nosso progresso; plebe e pensadores, sempre estas duas forças caminharam aqui unidas !... Agora mesmo no fato extraordinário que é o espanto da Europa e o júbilo da América na proclamação da República,as duas grandes forças lá estão ungidas uma a outra... A era das grandes lutas da política responsável abriu-se definitivamente para os brasileiros... A pátria abriu as largas asas em direitura à região constelada do progresso; a literatura vai desprender também o vôo para acompanhá-la de perto. Ao futuro ! ao futuro,modeladores de povos,construtores de nações !”
No clamor pela ampliação da atuação do Estado sobre a sociedade aliavam-se a homens públicos, políticos, jornalistas, até mesmo cafeicultores e industriais ,e a esse grupo juntar-se-ia os grupos militares defensores e sequiosos de maior participação na política— o que mais tarde não causaria surpresas quando do progressivo e acentuado fortalecimento dos governos republicanos a partir de Floriano Peixoto.
As reformas que preconizavam, no entanto, perderam-se no processo político republicano. Na consolidação do novo regime , que se deu por meio de um processo caótico e dramático, malograram-se seus esforços cientificistas,reformadores, inovadores na criação daquele ‘saber sobre o Brasil’. Cedo, muito cedo, já nos primeiros anos do século XX desiludiam-se: “Está tudo mudado: Abolição, República... Como isso mudou ! Então, de uns tempos para cá parece que essa gente está doida”, vaticina Isaias Caminha , sob a pena de Lima Barreto. José Veríssimo, no artigo“Vida literária” (revista Kosmos, n. 7,1904), descreve: “Todos se presumiam e diziam republicanos,na crença ingênua de que a República, para eles palavra mágica que bastava à solução de problemas de cuja dificuldade e complexidade não desconfiavam sequer, não fosse na prática perfeitamente compatível com todos os males da organização social, cuja injustiça os revoltava”. Ainda em outubro de 1890, antes do primeiro aniversário do15 de novembro, desencantava-se Silva Jardim, lamentando em carta a Rangel Pestana: “Comunico-lhe que parto para a Europa, a demorar-me o tempo preciso a que este País atravesse o período revolucionário de ditadura tirânica e de anarquia...” . “Esta não é a República de meus sonhos”, lamentou-se Lopes Trovão, um dos próceres do movimento republicano. “Foi para isso então que fizeram a República ?”, protestou Farias Brito.
No campo político, os intelectuais mantiveram-se passivos diante da “ditadura tirânica” e aceitaram as coligações de Deodoro da Fonseca com as forças mais conservadoras do Brasil agrário, mas as esperanças esfacelaram-se diante da índole e prática repressoras do governo Floriano Peixoto , quando e alguns dos antigos entusiastas da República tiveram de fugir do Rio de Janeiro para evitar a prisão, como Olavo Bilac e Guimarães Passos.
Passado o momento inicial de esperança, desfeito o caminho almejado da democratização do País prometida em comícios, conferências públicas, na imprensa radical, consolidada a vitória da ideologia reforçadora do poder oligárquico, derrotados ,desapontaram-se as elites, desapontaram-se os trabalhadores e o povo, desapontaram-se os intelectuais , que desistiram da política militante e se concentraram na literatura,aceitando postos ,mesmo decorativos, na burocracia especialmente no Itamaraty de Rio Branco, que atraíra em torno de si -- eficiente Rui Barbosa nesse trabalho de ‘cooptação’ -- o grupo de intelectuais, representantes da intelligentsia do novo regime , constituindo o que à época se auto-denominaram “República dos Conselheiros”.
(continua)
cf. Silvio Romero,Novos estudos de literatura contemporâneas ; s.ed., Rio de Janeiro, 1898 .
Escrito por maurorosso às 12h06
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os primeiros Machado - VII : ensaio
“O passado,o presente e o futuro da literatura”(continuação)
III
É sem dúvida, por este doloroso indiferentismo que a geração atual tem de encontrar numerosas dificuldades na peregrinação; contrariedades que, sem abater de todo as tendências literárias, toda via podem fatigá-las reduzindo-as a um marasmo apático, sintoma doloroso de uma decadência prematura.
No estado atual das cousas, a literatura não pode ser perfeitamente um culto, um dogma intelectual, e o literato não pode aspirar a uma exitência independente, mas sim tornar-se um homem social, participando dos movimentos da sociedade em que vive e de que depende.
Esta verdade, exceto no jornalismo, verifica-se em qualquer outra forma literária. Ora, será possível que assim tenhamos uma literatura convenientemente desenvolvida? Respondemos pela negativa.
Tratemos das três formas literárias essenciais: -o romance, o drama e a poesia.
Ninguém que for imparcial afirmará a existência das duas primeiras entre nós; pelo menos, a existência animada, a existência que vive, a existência que se desenvolve fecunda e progressiva. Raros, bem raros, se tem dado ao estudo de uma forma tão importante como o romance; apesar mesmo da convivência perniciosa com os romances franceses, que discute, aplaude e endeusa a nossa mocidade, tão pouco escrupulosa de ferir as susceptibilidades nacionais.
Podiamos aqui assinalar os nomes desses poucos que se têm entregado a um estudo tão importante, mas isso não entra na ordem deste trabalho, pequeno exame genérico das nossas letras. Em um trabalho de mais largas dimensões que vamos empreender analisaremos minuciosamente esses vultos de muita importância decerto para a nossa recente literatura.
Passando ao drama, ao teatro, é palpável que a esse somos o povo mais parvo e pobretão entre as nações cultas. Dizer que temos teatro, é negar um fato; dizer que não o temos, é publicar uma vergonha. E todavia assim é. Não somos severos: os fatos falam bem alto. O nosso teatro é um mito, uma quimera. E nem se diga que queremos que em tão verdes anos nos ergamos a altura da França, a capital da civilização moderna; não! Basta que nos modelemos por aquela renascente literatura que floresce em Portugal, inda ontem estremecendo ao impulso das erupções revolucionárias.
Para que estas traduções enervando a nossa cena dramática? Para que esta inundação de peças francesas, sem o mérito da localidade e cheias de equivocos, sensaborões as vezes, e galicismos, a fazer recuar o mais denodado francelho?
É evidente que é isto a cabeça de Medusa, que enche de terror as tendências indecisas, e mesmo as resolutas. Mais de uma tentativa terá decerto abortado em face desta verdade pungente, deste fato doloroso. Mas a quem atribuí-lo? Ao povo? O triunfo que obtiveram as comédias do Pena, e do Sr. Macedo, prova o contrário. O povo não é avaro em aplaudir e animar as vocações; saber agradá-lo, é o essencial.
É fora de dúvida, pois, que a não existir no povo a causa desse mal. não pode existir senão nas direções e empresas. Digam o que quiserem, as direções influem neste caso. As tentativas dramáticas naufragam diante deste czariato de bastidores, imoral e vergonhoso, pois que tende a obstruir os progressos da arte. A tradução é o elemento dominante, nesse caos que devia ser a arca santa onde a arte pelos lábios dos seus oráculos falasse as turbas entusiasmadas delirantes. Transplantar uma composição dramática francesa para a nossa língua, é tarefa de que se incumbe qualquer bípede que entende letra redonda. O que provém daí? O que se está vendo. A arte tornou-se uma indústria; e à parte meia dúzia de tentativas bem sucedidas sem dúvida, o nosso teatro é uma fábula, uma utopia.
Haverá remédio para a situação? Cremos que sim. Uma reforma dramática não é difícil neste caso. Há um meio fácil e engenhoso; recorra-se às operações políticas. A questão é de pura diplomacia; e um golpe de estado literário não é mais difícil que uma parcela de orçamento. Em termos claros, um tratado sobre direitos de representação reservados, com o apêndice de um imposto sobre traduções dramáticas, vem muito a pêlo, e convém perfeitamente as necessidades da situação.
Removido este obstáculo, o teatro nacional será uma realidade? Respondemos afirmativamente. A sociedade, Deus louvado! é uma mina a explorar, e um mundo caprichoso, onde o talento pode descobrir, copiar, analisar, uma aluvião de tipos e caracteres de todas as categorias. Estudem-na: eis o que aconselhamos as vocações da época!
A escola moderna presta-se precisamente ao gosto da atualidade. “As mullleres de mármore”— “O mundo equívoco” — “A dama das camélias” — agradaram, apesar de traduções. As tentativas do sr. Alencar tiveram um lisonjeiro sucesso. Que mais querem? A transformação literária e social foi exatamente compreendida pelo povo; e as antigas idéias, os cultos inveterados, vão caindo a proporção que a reforma se realiza. Qual é o homem de gosto que atura no século XIX uma punhalada insulsa tragicamente administrada, ou trocadilhos sensaborões da antiga farsa?
Não divaguemos mais; a questão está toda neste ponto. Removidos os obstáculos que impedem a criação do teatro nacional, as vocações dramáticas devem estudar a escola moderna. Se uma parte do povo está ainda aferrada às antigas idéias, cumpre ao talento educá-la, chamá-la à esfera das idéias novas, das reformas, dos princípios dominantes. É assim que o teatro nascerá e viverá; é assim que se há de construir um edifício de proporções tão colossais e de futuro tão grandioso.
Escrito por maurorosso às 23h22
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os primeiros Machado - VII : ensaio
Antes de ser contista ou romancista, Machado fez-se critico – um crítico competentíssimo, profundo conhecedor do material a ser analisado, sóbrio, equilibrado, “alguém com uma consciência aguda dos problemas da linguagem, alguém que sabia dimensionar muito bem os elementos sociológicos, históricos, a relação entre o nacional e o literário”, como acentua Antonio Carlos Secchin. Já como criador de contos e romances, Machado continuou por muito tempo exercendo a crítica -- literária ( passaram por seu crivo ,entre muitos outros, obras de José de Alencar, Araujo Porto Alegre,Álvares de Azevedo,Joaquim Manuel de Macedo,Lúcio de Mendonça,Fagundes Varela, e em especial Eça de Queiroz – com quem, ao comentar o romance O primo Basílio, acendeu conhecida polêmica que inclusive contagiou o meio cultural de então); teatral (são dele as críticas a trabalhos dramatúrgicos de Castro Alves, Alencar,Macedo, ); e até de música (enquanto parecerista do Conservatório Dramático)—e até 1879, i.e. 21 anos depois de seu primeiro texto de crítica, escreveu notáveis,antológicos ensaios, como “Idéias sobre o teatro”(1859), “O ideal do crítico”(1865), “Notícia da atual literatura brasileira -- Instinto de nacionalidade”(1873),”A nova geração”(1879).”Perdeu-se, em Machado de Assis, um dos maiores de nossos críticos”, sentenciou Mario de Alencar em 1880, mas Sechin observa que “ ele transferiu esse olhar crítico para o palco das paixões humanas, num exercício de crítica oblíqua, que é a sua visão de mundo na ficção.”
Da mais alta qualidade literária, o ensaismo machadiano teve início a 9 abril1858, quando publicou em A Marmota (em 3 folhetins, até dia 23) este “O passado,o presente e o futuro da literatura” que aqui está
O passado, o presente e o futuro da literatura
I
A literatura e a política, estas duas faces bem distintas da sociedade civilizada, cingiram como uma dupla púrpura de glória e de martírio os vultos luminosos da nossa história de ontem. A política elevando as cabeças eminentes da literatura, e a poesia santificando com suas inspirações atrevidas as vítimas das agitações revolucionárias, e a manifestação eloquente de uma raça heróica que lutava contra a indiferença da época, sob o peso das medidas despóticas de um governo absoluto e bárbaro. O ostracismo e o cadafalso não os intimidavam, a eles, verdadeiros apóstolos do pensamento e da liberdade; a eles, novos Cristos da regeneração de um povo, cuja missão era a união do desinteresse, do patriotismo e das virtudes humanitárias.
Era uma empresa difícil a que eles tinham então em vista. A sociedade contemporânea era bem mesquinha para bradar—avante! —aqueles missionários da inteligência e sustentá-los nas suas mais santas aspirações. Parece que o terror de uma época colonial inoculava nas fibras íntimas do povo o desânimo e a indiferença.
A poesia de então tinha um caráter essencialmente europeu. Gonzaga, um dos mais líricos poetas da língua portuguesa, pintava cenas da Arcádia, na frase de Garrett, em vez de dar uma cor local às suas liras, em vez de dar-lhes um cunho puramente nacional. Daqui uma grande perda: a literatura escravizava-se, em vez de criar um estilo seu, de modo a poder mais tarde influir no equilíbrio literário da América.
Todos os mais eram assim: as aberrações eram raras. Era evidente que a influência poderosa da literatura portuguesa sobre a nossa, só podia ser prejudicada e sacudida por uma revolução intelectual.
Para contrabalançar, porém, esse fato cujos resultados podiam ser funestos, como uma valiosa exceção apareceu o Uraguai de Basílo da Gama. Sem trilhar a senda seguida pelos outros, Gama escreveu um poema, se não puramente nacional, ao menos nada europeu. Não era nacional, porque era indígena, e a poesia indígena, bárbara, a poesia do boré e do tupã, não é a poesia nacional. O que temos nós com essa raça, com esses primitivos habitadores do país, se os seus costumes não são a face característica da nossa sociedade?
Basílio da Gama era entretanto um verdadeiro talento, inspirado pelas ardências vaporosas do céu tropical. A sua poesia suave, natural, tocante por vezes, elevada, mas elevada sem ser bombástica, agrada e impressiona o espírito. Foi pena que em vez de escrever um poema de tão acanhadas proporções, não empregasse o seu talento em um trabalho de mais larga esfera. Os grandes poemas são tão raros entre nós!
As odes de José Bonifácio são magníficas. As belezas da forma, a concisão e a força da frase, a elevação do estilo, tudo encanta e arrebata. Algumas delas são superiores às de Filinto. José Bonifácio foi a reunião dos dous grandes princípios pelos quais sacrificava-se aquela geração: a literatura e a política. Seria mais poeta se fosse menos político; mas não seria talvez tão conhecido das classes inferiores. Perguntai ao trabalhador que cava a terra com a enxada, quem era José Bonifácio; ele vos falará dele com o entusiasmo de um coração patriota. A ode não chega ao tugúrio do lavrador. A razão é clara: faltam-lhe os conhecimentos, a educação necessária para compreendê-la. Os Andradas foram a trindade simbólica da inteligência, do patriotismo, e da liberdade. A natureza não produz muitos homens como aqueles. Interessados vivamente pela regeneração da pátria, plantaram a dinastia bragantina no trono imperial, convíctos de que o herói do Ipiranga convinha mais que ninguém a um povo altamente liberal e assim legaram à geração atual as douradas tradições de uma geração fecunda de prodígios, e animada por uma santa inspiração.
Sousa Caldas, S. Carlos e outros muitos foram também astros luminosos daquele firmamento literário. A poesia é a forma mais conveniente e perfeitamente acomodada às expansões espontâneas de um país novo, cuja natureza só conhece uma estação, a primavera, teve naqueles homens, verdadeiros missionários que honraram a pátria e provam as nossas riquezas intelectuais ao crítico mais investigador e exigente.
II
Uma revolução literária e política fazia-se necessária. O país não podia continuar a viver debaixo daquela dupla escravidão que o podia aniquilar.
A aurora de 7 de Setembro de 1882, foi a aurora de uma nova era. O grito do Ipiranga foi o - Eureca- soltado pelos lábios daqueles que verdadeiramente se interessam pela sorte do Brasil cuja felicidade e bem-estar procuravam. O país emancipou-se. A Europa contenplou de longe esta regeneração política, esta tansição súbita da servidão para a liberdade, operada pela vontade de um príncipe e de meia dúzia de homens eminentementes patriotas. Foi uma honrosa conquista que nos deve encher de glória e de orgulho; e é mais que tudo uma eloqüente resposta às interrogações pedantescas de meia dúzia de céticos da época: o que somos nós?
Havia, digamos de passagem, no procedimento do fundador do império um sacrifício heróico, admirável e pasmoso. Dous tronos se erguiam diante dele: um, cheio de tradições e de glórias; o outro, apenas saído das mãos do povo, não tinha passado, e fortificava-se só com uma esperança no futuro! Escolher o primeiro era um duplo dever, como patriota e como príncipe. Aquela cabeça inteligente devia dar o seu quinhão de glória ao trono de D.Manuel e D. João II. Pois bem! ele escolheu o segundo, com o qual nada ganhava, e ao qual ia dar muito. Há poucos sacriícios como este. Mas após o fiat político, devia vir o fiat literário, a emancipação do mundo intelectual, vacilante sob a ação influente de uma literatura ultramarina. Mas como? É mais fácil regenerar uma nação, que uma literatura. Para esta não há gritos de Ipiranga; as modificações operam-se vagarosamente; e não se chega em um só momento a um resultado.
Além disso, as erupções revolucionárias agitavam as entranhas do país; o facho das dimensões civis ardia em corações inflamados pelas paixões políticas. O povo tinha-se fracionado e ia derramando pelas próprias veias a força e a vida. Cumpria fazer cessar essas lutas fratricidas para dar lugar as lutas da inteligência, onde a emulação é o primeiro elemento e cujo resultado imediato são os louros, fecundos da glória e os aplausos entusiásticos de uma posteridade agradecida.
A sociedade atual não é decerto compassiva, não acolhe o talento como deve fazê-lo. Compreendam-nos! nós não somos inimigo encarniçado do progresso material. Chateaubriand o disse: " quando se aperfeiçoar o vapor, quando unido ao telegrafo tiver feito desaparecer as distâncias, não hão de ser só as mercadorias que hão de viajar de um lado a outro do globo, com a rapidez do relâmpago; hão de ser também as idéias". Este pensamento daquele restaurador do cristianismo-é justamente o nosso-; nem é o desenvolvimento material que acusamos e atacamos. O que nós queremos, o que qerem todas as vocações, todos os talentos da atualidade literária, é que a sociedade não se lance exclusivamente na realização desse progresso material, magnífico pretexto de especulação, para certos espiritos positivos que se alentam no fluxo e refluxo das operações monetárias. O predomínio exclusivo dessa realeza parva, legitimidade fundada numa letra de câmbio, é fatal, bem fatal às inteligências; o talento pode e tem também direito aos olhares piedosos da sociedade moderna: negar-lhos é matar-lhe todas as aspirações, é nulificar-lhe todos os esforços aplicados na realização das idías mais generosas, dos princípios mais salutares, e dos germes mais fecundos do progresso e da civilização.
(continua)
Escrito por maurorosso às 23h21
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Literatura e gastronomia- I : assado de nozes parao Natal
o escritor português Camilo Castelo Branco (1825-60)tem no romance Amor de perdição talvez sua obra mais conhecida pelo público, mas foi ele autor de nada menos do que 50 obras, entre romances,novelas e contos, como p. ex. Onde está a felicidade? , O que fazem as mulheres , Doze casamentos felizes, O romance de um homem rico,Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado , Amor de salvação ,O judeu,A queda dum anjo ,Os brilhantes do brasileiro, A mulher fatal,Novelas do Minho ,Eusébio Macário,A corja ,A brasileira de Prazins
na novela Coração, Cabeça e Estômago (1862) , sucedem-se ao longo da narrativa muitos almoços e jantares – entre eles uma lauta ceia de Natal.que oferece como um dos acepipes um atraente assado de nozes, cuja receita adaptada aos tempos modernos assim é :
4 cebolas médias
5 tomates
2 cenouras médias raladas
3 fatias de pão (de preferência integral ) esfareladas
1/2 xícara de suco de legumes
100g amêndoas moídas
100g castanhas de caju moídas
refogue as cebolas na panela por 5 minutos. junte tomates, cenoura ralada,
farelo de pão, suco de legumes e cozinhe por 15 minutos. junte as castanhas
e amêndoas e despeje numa forma de pão. leve a assar por
meia hora
Escrito por maurorosso às 17h52
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